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                                                                                    Textos em destaque


                                                                                              Ranking Universitário Folha 2014
                                                                                                        Clóvis Pereira – UFPR

Recentemente a Folha de São Paulo divulgou o Ranking Universitário Folha – RUF 2014. Uma listagem das Universidades brasileiras de melhor desempenho, de acordo com os indicadores avaliados que são: Ensino; Pesquisa; Inserção no Mercado de Trabalho; Inovação; Internacionalização.

O RUF 2014 conta com uma listagem de 192 Universidades. Segundo seus responsáveis, o ranking procura medir a qualidade das Universidades brasileiras, em suas diferentes missões (ensino, pesquisa e extensão. Cf. Art. 207 da Constituição Brasileira) a partir de metodologias utilizadas em rankings internacionais, mas com adaptações para o contexto brasileiro.

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Ano VIII  Setembro 2014





                                                                                                  Controle Social da Academia

                                                                                                                    Luis Vieira



Um dos mantras preferidos pela esquerda, o controle social das atividades do Estado, tem sido propagado ad nauseam pelos seus inúmeros partidos na propaganda eleitoral. O decreto presidencial 8.243, Política Nacional de Participação Social, cuja implantação está, por ora, suspensa pela legislação eleitoral, aprofunda a metamorfose do Estado brasileiro em um Estado de sovietes. Desfaçadamente, o governo central gera a própria crise que justifica a mudança, a corrupção e a ineficiência desses últimos 12 anos são debitados ao Estado democrático de direito, constituído a partir da Constituição de 1988 (a qual boa parte da esquerda não subscreveu).

Nas universidades federais, regidas a colegiados, a materialização do propalado controle social é a constituição de sindicatos e associações estudantis classistas (leia-se revolucionárias) cuja atuação ultrapassa o domínio das reivindicações trabalhistas para se instalar no centro das deliberações da instituição universitária. Como se isso fosse pouco, as entidades reivindicam também o direito de indicar os representantes nos colegiados, retirando da administração da instituição de ensino superior, responsável perante a lei e a sociedade, a prerrogativa de organizar o processo de escolha dos representantes. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro a constituição de seu colegiado maior – Conselho Universitário – prevê que a indicação dos representates discentes é prerrogativa das entidades estudantis mas não havia nada tão explícito quanto às congregações de unidade e foi exatamente numa delas – Escola de Educação Física e Desportos que se instalou uma polêmica sobre quem deveria organizar as eleições – a administração da IES ou o Centro Acadêmico. Por considerar que não feria o Estatuto da Universidade, o diretor da EEFD manteve o procedimento institucional e foi por isso acusado de autoritarismo, para dizer o mínimo. A controvérsia só foi resolvida, no âmbito da UFRJ, em maio de 2014, a favor das classes oprimidas, é claro, através da resolução no 5* (que não contempla colegiados de departamentos), demonstrando, no entanto, que o professor da EEFD não tinha violado nenhuma norma dessa universidade, senão ela não teria se feito necessária.

Dificuldades dessa natureza somadas aos problemas crônicos da administração federal desencorajam vocações para a gestão universitária, a menos que as motivações sejam de natureza política.



*Resolução No 5/2014 do CONSUNI da UFRJ

Art. 1º Reafirmar a prerrogativa das entidades representativas dos estudantes na organização do processo de escolha dos representantes discentes nos colegiados superiores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como nas Congregações das Unidades Acadêmicas e colegiados equivalentes dos Órgãos Suplementares.


Comentários recebidos:


 Indicação de representantes discentes

 Uma coisa é definir quem convoca e comanda as eleições dos representantes no Consuni ou nas Congregações. Outra coisa, muito diferente, é definir quem comanda o processo de indicação. As entidades estudantis não querem comandar esse processo, substituindo a instituição federal. Elas não querem elas mesmas fazerem as eleições. Elas simplesmente não querem essas eleições com voto direto dos discentes elegendo os representantes discentes. Parece parecido. Mas é muito diferente. De um lado, um processo eleitoral. De outro lado, um processo de indicação de representantes sem eleição desses representantes pelos que serão representados. Se a UFRJ quer conceder assentos, em seus Colegiados, para as entidades do movimento estudantil, tudo bem, maravilha. Só não pode é com isso zerar a indicação de representantes discentes com eleições similares às que convoca para os representantes docentes.

L.E.R.Carvalho



Ano VIII  setembro 2014


                                                                                                                                                              
                                                                                        O atalho que não leva a lugar algum
                                                                                                              Luis Vieira


O contexto que envolve a publicação de periódicos pouco confiáveis reflete a crise mundial da atividade científica em universidades e entidades de pesquisa. Pesquisar é caro e não necessariamente traz retornos imediatos ou mesmo dignos de nota. A crise econômica global provocou graves cortes de verbas em todo o mundo. Em 2013 estive na Espanha e pude verificar a difícil situação dos pesquisadores espanhóis, muitos abandonando o país, ou a profissão. Nesse quadro fica mais difícil manter uma atividade científica de qualidade e divulgá-la nos periódicos consagrados o que equivale a não ter feito nada. A revolta contra o império das publicações, concentrado em poucas editoras internacionais, provocou manifestações individuais (Higgs, Schekman) e coletivas (DORA).

Infelizmente, ao invés de buscar soluções íntegras, maus empreendedores distorceram a iniciativa do periódicos "open access" que visava facilitar o acesso a publicações científicas e a transformaram numa indústria de "papers" de segunda categoria, tipo - pagou, publicou.

O OBSUNI/Prof. Vinicius Arcaro rastrearam no Brasil a amplitude dessa má iniciativa, já denunciada amplamente no exterior, (veja o experimento da revista Science), muitos periódicos pouco confiáveis estão certificados pelo banco Qualis da CAPES e as IES brasileiras estão aceitando essas publicações como evidência de produção científica.

Se a fórmula tem ajudado as carreiras daqueles que praticam esse atalho, certamente não é o caso da posição brasileira no ranking de importância da ciência mundial. Trabalho recente baseado no Web of Science, premiações internacionais e impacto na pesquisa só identificou cinco pesquisadores radicados no Brasil como sendo dignos de nota na ciência mundial. A recente indicação de um brasileiro para a medalha Fields constitui mais uma exceção do que a regra.


Ano VIII agosto 2014




                                                                                                                                                                                                                  
                                                                 Os Cientistas mais Influentes no Mundo Atual e o Contexto Brasileiro*

                                                                                                          Clóvis Pereira – UFPR

O objetivo deste texto é repercutir no contexto acadêmico brasileiro e no âmbito dos governos estaduais e federal o documento elaborado e divulgado recentemente por Thomson Reuters, intitulado World’s Most Influential Scientific Minds 2014.

O documento, com 108 páginas, contém uma análise dos mais importantes e influentes cientistas da Terra que trabalham em diversas áreas do conhecimento. Em busca de resposta para a pergunta:
Who are some of the best and brightest scientific minds of our time?

Os peritos da Thomson Reuters analisaram dados disponíveis existentes na Web Science e em plataformas de incentivo para determinar os pesquisadores que têm produzido trabalhos de relevância em pesquisa científica, em diversas áreas do conhecimento, que são mais frequentemente reconhecidos por seus pares em diferentes países do mundo. Para o trabalho acima citado foram consultados diretórios de pesquisa altamente citados.

Na introdução do documento em pauta encontramos a seguinte afirmação: These researchers are, undoubtedly, among the most influential scientific minds of our time.

Os pesquisadores citados foram incluídos no documento pela análise dos dados de seus artigos científicos que foram publicados e citados em revistas de circulação mundial nos últimos 11 anos, no período de 2002-2012 e de 2012-2013. Os pesquisadores incluídos no documento são os que estão influenciando fortemente a direção, presente e futura, no mundo da pesquisa científica em cada um de seus campos de atuação.

Na era da internacionalização das ciências e das tecnologias em que elas desempenham um papel poderoso na vida da sociedade em cada país, quando o destino de toda a humanidade pode depender dos resultados da pesquisa científica e tecnológica realizadas, cabe aos cientistas e aos dirigentes esclarecidos dos Estados e dos Países estarem plenamente conscientes desse papel, e de suas condutas em conformidade com suas responsabilidades.

Nas páginas 6 e 7 do documento, encontramos uma listagem contendo sicentists with mutiple hot papers. Eles são no total de 17 e trabalham em diversas instituições de ensino superior, exceto em instituições brasileiras, e que desenvolvem pesquisa em diferentes áreas do conhecimento. O primeiro dos cientistas citados é Stacey B. Gabriel, com 23 hot papers. Sua área de trabalho: genômica. Ela trabalha em: Broad Institute of MIT and Harvard, USA. O último dos cientistas citados é Huijun Gao, com 15 hot papers. Sua área de trabalho: computação/engenharia. Ele trabalha em: Harbin Institute of Technology, China.

Ao analisarmos o documento ficamos perplexos (mas não surpresos, pois somos membros da comunidade acadêmica brasileira), ao depararmos com a pobreza de citações de nomes de cientistas brasileiros e que trabalham no Brasil. Esta pobreza, como sabemos, emana do descaso como tem sido tratado o gerenciamento da C & T e Ensino Superior em nosso país, e emana também da incompetência dos gestores federais e estaduais dessa área.

No documento em pauta, para o Brasil são citados os seguintes cientistas: Alvaro Avezum, do Hospital do Coração – HCor, em São Paulo, que desenvolve pesquisas na área de clínica médica. O HCor é uma Associação do Sanatório Sírio e possui o Instituto de Ensino e Pesquisa –IEP. Wunder Sven, que trabalha no Center for International Forestry Research – CIFOR, e desenvolve pesquisas na área de economia e negócios ligados à floresta. Ernesto R. Gonzalez, da USP, que desenvolve pesquisas na área de engenharia. Paulo Artaxo, da USP, que desenvolve pesquisas na área de meio ambiente e ecologia. Adriano Nunes-Nesl, da UFV que desenvolve pesquisas em floresta e ciência veterinária.

Para que o leitor perceba o descaso dos gestores brasileiros na área de C & T, cujo efeito é a vergonhosa posição do Brasil nos rankings mundiais que avaliam a qualidade e a quantidade da produção cientifica de cientistas brasileiros que trabalham no país, citaremos alguns países que não tinham tradição em possuir destacados cientistas nem excelente produção científica no ranking mundial, mas que a partir de gestões competentes, visão de futuro e pesados investimentos em C & T e para a formação de recursos humanos qualificados, passaram a possuir cientistas que produzem excelente produção científica.

Dentre outros, citamos os seguintes países. Arábia Saudita que foi citada no documento com 32 destacados cientistas. Coreia do Sul que foi citada com 19 destacados cientistas e Israel que foi citado no documento com 9 destacados cientistas. Todos eles trabalhando em diferentes áreas do conhecimento.

Como acima dissemos, não nos causou surpresa a diminuta citação, neste documento, de cientistas brasileiros, por diversos motivos, citaremos alguns deles motivos. Em um país onde alguém que ocupa um alto cargo na administração federal da nação como Ministro de Estado e, que em reunião do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia – CCT, realizada em 25 de junho de 2014, (cf. Wanderley de Souza, Autoridades ainda não sabem o que é ciência, in Notícias da Academia Brasileira de Ciências, de 16/07/2014) disse a seguinte sandice.

Os cientistas dedicam excessivo tempo à produção de papers e descuidam das aplicações de utilidade econômica e social da Ciência. Eles deveriam ser trancados em uma sala a pão e água enquanto não desenvolvessem pesquisas de utilidade.

Nada de racional, inteligente e proveitoso esperamos para a gestão de C & T e Ensino Superior do país emanado de pessoas com a formação e mente atrofiados. A administração federal está repleta de pessoas incompetentes, irresponsáveis e sem amor à pátria.

Outro forte motivo que tem causado empecilhos aos cientistas brasileiros que trabalham no Brasil, obstáculos que têm dificultado o desenvolvimento da ciência e da tecnologia em nosso país: formação de recursos humanos qualificados, importação de equipamentos ou insumos, barreiras regulatórias, propriedade intelectual.

Informamos que o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia CCT, foi criado por Lei nº 9.257, de 09 de janeiro de 1996, como "órgão de assessoramento superior do Presidente da República para a formulação e implementação da política nacional de desenvolvimento científico e tecnológico".

Se um de seus membros, pessoa que assessora o Presidente da República, diz tamanha sandice em uma das reuniões do CCT, então o que deveremos esperar da tomada de decisões e visão estratégica, por parte da administração federal, para o presente e para o futuro do sistema brasileiro de C & T?

As palavras do ministro em pauta (que já assumiu no atual governo as pastas: MCTI, MEC) explicam, parcialmente, os atuais entraves por que passam as atividades de pesquisas científica e tecnológica em nosso país. Juntemos a isso a má qualidade do Sistema Nacional de Graduação – SNG.

A administração da C&T no Brasil vem também descuidando do controle de qualidade da produção científica ao permitir que periódicos pseudo científicos sejam listados no Qualis conforme apontamos em dois textos: Qualis sob Suspeita e Submundo Acadêmico ambos publicados nesse blog.

Não sabemos se os responsáveis pela área C & T, nas administrações estaduais e federal, leram o documento acima citado. Se o leram, então não entenderam sua importância e relevância para o contexto da humanidade no presente e no futuro. Se entenderam o documento, então que providências foram ou estão sendo tomadas? Também pode ser que tenham lido o documento e não enxergaram a importância do mesmo. Por parte da administração central do Estado do Paraná, via Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – SETI não houve reação alguma, que tenha sido divulgada na imprensa diária, sobre o documento acima citado. Tampouco a Academia Brasileira de Ciências ou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência se manifestaram.

Sabemos que só as nações que investem pesado em ciência e tecnologia de excelência, estão aptas a resistirem às turbulências econômico/financeiras que assolam os mercados dos países de tempos em tempos. O Brasil, por meio de seus dirigentes incompetentes, não aprendeu essa lição básica. 

*Com a colaboração de Luis Vieira


Ano VIII agosto de 2014





                                                                     
A Era do Conhecimento Globalizado

                                                                                                         Clóvis Pereira – UFPR



O objetivo deste texto é alertar a administração central, a comunidade acadêmica e a sociedade do Estado do Paraná para a necessidade de criar e executar projetos estruturais que visem, em longo prazo, reformular o Sistema Público de Ensino Superior do Estado.

Lembramos que quando há erros na estrutura da educação escolar superior de um Estado ou de um País, os administradores que têm o poder de agir na tomada de decisões também têm a responsabilidade de agir para consertar o que está errado nessa estrutura.

Na era do conhecimento no mundo globalizado atual o bem mais precioso de um Estado, ou de um País, é o seu capital humano detentor de boa educação escolar em níveis fundamental e médio e em nível superior. Sabemos que investimentos em educação escolar de excelente qualidade, em ciência e em tecnologia em harmonia com um bom projeto de desenvolvimento estadual, representam a melhor estratégia para um bom administrador e sua equipe de assessores.

Neste contexto é imprescindível a importância da boa educação escolar superior (graduação e pós-graduação stricto sensu) ofertada por um Estado, ou por um País a seus filhos. O estágio da boa educação escolar superior só poderá ser atingido por intermédio da boa qualidade de suas Universidades. Emerge daí a necessidade de constante vigilância por parte da administração central do Estado sobre o Sistema Público de Ensino Superior do Paraná, que é formado por sete Universidades Estaduais.

É obrigação de um bom gestor do Estado trabalhar para que as Universidades Estaduais (ou ao menos as de melhor desempenho) abriguem bons centros de: ensino profissional, estudos, pesquisas e inovação, como têm sido feito, há várias décadas em países desenvolvidos. A administração central do Paraná deve estar ciente de que os benefícios para a sociedade paranaense, advindos desse processo, serão em longo prazo. Mas seus primeiros resultados poderão ser obtidos em médio prazo.

O Paraná necessita e clama pela organização e manutenção de um excelente Sistema Público de Ensino Superior para dar prosseguimento a seu desenvolvimento científico, tecnológico, industrial, agrícola, de serviços, econômico, social e cultural. Um Sistema de Ensino Público Superior que gradue e especialize profissionais talentosos que estejam aptos para equacionar e solucionar os diferentes problemas que a sociedade lhes proponha. Profissionais que estejam aptos para gerar riquezas para o Estado.

Consideramos que a relevância das sete Universidades Estaduais do Paraná será determinada por suas capacidades de responder criativamente aos desafios contemporâneos. Elas (ou ao menos as de melhor desempenho) terão que satisfazer a maior demanda por profissionais bem qualificados para garantir o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, industrial, agrícola, social e cultural do Estado.

As Universidades Estaduais do Paraná de melhor desempenho têm que estar aptas para enfrentar o desafio de participar da formulação de políticas públicas para o Estado do Paraná, em articulação com a administração estadual e, com o setor produtivo do Estado. E deverão também estar aptas para contribuir com empresas, indústrias e cooperativas agrícolas para desenvolver em conjunto um ousado programa de inovação tecnológica, que beneficie a população paranaense e aumente a relevância do Paraná e do país no mundo globalizado.

Não basta que o Estado do Paraná possua sete Universidades Estaduais, como têm apregoado na mídia nacional alguns dirigentes do Estado ao longo dos anos. É necessário e suficiente que, na era do conhecimento no mundo globalizado, o Paraná possua um excelente sistema universitário formado por instituições públicas que tenham a missão explícita de contribuir, por intermédio de seus docentes, pesquisadores e de seus egressos, para o avanço do desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, industrial, agrícola, social e cultural do Estado e do país. Lembramos que os obstáculos que dificultam o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Paraná, e no país em geral, encontram-se principalmente na formação de recursos humanos e, também na importação de equipamentos ou insumos, nas barreiras regulatórias e na propriedade intelectual.

Para superar esses empecilhos será necessário, antes de tudo, que seja realizado um choque de gestão na Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná – SETI, que foi criada em 1987, com a missão de definir, coordenar e executar políticas e diretrizes nas áreas da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Aos gestores da SETI propomos que pensem, equacionem e resolvam o seguinte problema: que qualidade (nas opções: má, boa, excelente) queremos para o Sistema Público de Ensino Superior do Paraná?

É necessário também que haja vontade política, conhecimentos da área e visão de futuro por parte do administrador central do Estado para que possa enxergar as necessidades do Paraná na área de ensino superior de excelente qualidade, e desse modo esteja apto para instruir seus assessores na elaboração de planejamento estratégico, planos estruturais, metas e ações para que o Sistema de Ensino Público Superior do Estado atinja o nível de excelência em longo prazo. Este não é um processo que gera resultados imediatos, como desejam ou pensam alguns políticos mal assessorados. Este processo gerará bons resultados em longo prazo.

Lembramos aos gestores do Estado que, para ser atingido este objetivo é necessário e suficiente que o Sistema Público de Ensino Superior do Paraná possua em sua totalidade um corpo docente formado por doutores titulados em diversas áreas do conhecimento, fato que atualmente não acontece. Este processo produzirá efeitos em longo prazo; e também que haja a internalização da internacionalização das ciências e das tecnologias atitude que precisa ser instalada na SETI.

Uma das condições necessárias para que uma instituição de nível superior atinja o nível de excelência é que seu corpo docente possua mentes brilhantes bem treinadas que, por sua vez, atrairão alunos talentosos para seus cursos de graduação e de pós-graduação stricto sensu. Estes requisitos, como sabemos, propiciam à instituição detentoras de tais docentes e discentes grande visibilidade e prestígio acadêmico perante a sociedade que a mantém.

A propósito da qualificação acadêmica do corpo docente das sete Universidades Estaduais do Paraná, segundo dados fornecidos pela SETI e referentes a dezembro de 2012, constatamos o seguinte quadro.



Docentes Efetivos das sete Universidades Estaduais

Doutores

3.423

Mestres

2.345

Apenas com Especialização

697

Apenas com Graduação

123

Total

6.588

Tabela ‘1. Fonte: SETI



Docentes Temporários das sete Universidades Estaduais

Doutores

281

Mestres

822

Apenas com Especialização

532

Apenas com Graduação

177

Total

1.812

Tabela 2. Fonte SETI




Neste quadro, o percentual geral de docentes (efetivos e temporários) com o grau de doutor trabalhando no Sistema Estadual de Ensino Superior do Paraná até dezembro de 2012 é de 44,14%.

Quando consideramos a UEM, a UEL, a UNIOESTE e a UEPG isoladamente, então seus percentuais de docentes doutores titulados são os seguintes.

Instituição

Percentual de Docentes Doutores



UEM

64,05%



UEL

59,48%



UNIOESTE

55,54%



UEPG

26,88%



Tabela 3. Fonte: SETI

Percebemos claramente que em cada uma das quatro principais Universidades Estaduais do Paraná o percentual de docentes doutores ativos não atinge o ideal de 100%. O leitor poderá inferir a respeito dos percentuais de doutores titulados que trabalham em cada uma das outras três menores Universidades Estaduais.

Classificamos o percentual geral de 44,14% de doutores titulados trabalhando no Sistema Público Estadual de Ensino Superior do Paraná como muito baixo e incompatível com a importância do Estado no contexto econômico, agrícola, social, industrial e científico nacional.

Este baixo percentual é efeito da causa: descaso ou falta de visão de futuro para construção de excelentes Universidades Estaduais em nosso Estado no momento de suas criações. Ele também é uma das causas cujo efeito representa a má qualidade dos cursos de graduação ofertados pelo sistema e o baixo número de grupos de pesquisas, no total de 1.231 grupos, existentes no Sistema Público Estadual de Ensino Superior do Paraná e registrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, ver Tabela 4.

Lembramos que estes grupos são responsáveis pela geração e produção científica e tecnológica nas Universidades Estaduais do Paraná. As pesquisas científica e tecnológica geram a ciência e a tecnologia. Esta gera a inovação tecnológica. Informamos que para as Universidades Estaduais do Estado de São Paulo, só a USP possui 1.866 grupos de pesquisa registrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq.

Outro dado acadêmico negativo para o contexto de nosso Estado é o seguinte. Quando analisamos os relatórios do prestigiado Ranking Universitário Mundial elaborado anualmente por Times Higher Education, da Thomson Reuters, que aborda nas 100 melhores Universidades jovens do Planeta Terra, isto é, instituições com menos de 50 anos de idade, as cinco áreas: inovação, ensino, influência da pesquisa, volume de pesquisas e impressão no meio acadêmico, abrangendo investimento financeiro em pesquisas, total de docentes da instituição, a qualificação dos docentes, total de alunos estrangeiros na instituição, total de publicações em revistas científicas, dentre outros itens, observamos nas versões desse Ranking referentes aos anos de 2012, 2013 e 2014 que nenhuma das sete Universidades Estaduais do Paraná é citada. Lembramos que todas elas têm menos de 50 anos de idade. Um fato no mínimo indigno para a sociedade paranaense. Não temos informações sobre manifestações da direção da SETI a respeito desse quadro.

Instituições públicas de ensino superior do Estado do Paraná participantes do Diretório de Pesquisa do CNPq.

Instituição

Total de grupos de pesquisa

Total de grupos certificados

Total de grupos não atualizados

UEL

425

386

180

UEM

295

211

208

UEPG

147

137

55

UNIOESTE

157

157

30

UNICENTRO

105

122

22

UENP

69

59

20

UNESPAR

43

47

14

Tabela 4. Fonte: Diretório de grupos de pesquisa do CNPq. Estatística de atualização.

Mesmo com o crescimento da produção científica e tecnológica da comunidade acadêmica paranaense nos últimos anos, o impacto dos artigos publicados por esta comunidade continua abaixo da média mundial (recentemente um texto publicado em um jornal diário de Curitiba abordou este assunto).

Sugerimos fortemente que a direção da SETI e a administração central do Estado se preocupem, com a diminuta produção científica da comunidade acadêmica paranaense e busquem mecanismos para sua correção.

Julgamos que a qualidade e a quantidade dessa produção científica devem ser monitoradas e divulgadas periodicamente pela SETI por meio da criação de um banco de dados apropriado a ser alimentado por dados fornecidos periodicamente pelas Pró-Reitorias de Pesquisa e Pós-Graduação das sete Universidades Estaduais.

Para uma pista sobre a quantidade da produção científica produzida anualmente pela comunidade acadêmica paranaense indicamos, além de outros textos, a leitura do artigo, intitulado Produção científica no Brasil: um salto no número de publicações, in Em discussão, Ano 3, nº 12, set/2012, onde o texto focaliza observações feitas pelo Dr. Carlos Henrique de Brito Cruz, da UNICAMP e Diretor Científico da FAPESP quando diz:

Outro dado revelador, segundo a análise de Carlos Cruz, é que 64% das publicações de cientistas brasileiros radicados no Brasil em periódicos científicos internacionais vêm de apenas oito universidades, quatro delas de São Paulo. A Universidade de São Paulo respondeu sozinha por 26% dessas publicações em 2008...

Este fato nos aponta para o desvio feito, em algum momento, pelo sistema ao qual pertence à comunidade acadêmica paranaense, buscando multiplicar a quantidade (talvez motivada por pressões internas do tipo Publish or Perish) e não a qualidade, da produção científica e tecnológica.

Uma pista sobre a verificação periódica da qualidade da produção científica produzida anualmente pela comunidade acadêmica paranaense (não estamos afirmando a existência de má qualidade) poderá ser encontrada pela direção da SETI na leitura, além de outros, de dois textos recentemente publicados, em julho de 2014, in http://observatoriodauniversidade.blog.br/, por Luis Vieira e intitulados: Qualis sob Suspeita; Submundo Acadêmico que lançam questões importantes sobre o grave problema da qualidade de artigos científicos publicados por acadêmicos brasileiros. Este é um dos graves problemas existente no sistema acadêmico brasileiro. Sugerimos atenção constante da SETI sobre este problema.

Uma das ações no sentido de corrigir parte desse desvio do sistema, seria a comunidade acadêmica paranaense que pertence a grupos de pesquisa inserir-se cada vez mais (na forma de colaboração internacional) em grandes projetos com tópicos de interesse mundial desenvolvidos por importantes pesquisadores estrangeiros. Isto é, aumentar a colaboração internacional.

Aliás, alguns dos mais destacados colegas paranaenses já adotam essa prática de trabalho, a colaboração internacional. Lembramos que esta prática tem se tornado comum entre os mais prestigiados físicos teóricos brasileiros e também entre destacados matemáticos brasileiros. Os resultados têm sido promissores para a comunidade brasileira de físicos teóricos e de matemáticos, com o aumento substancial do fator impacto de seus trabalhos em relação à média mundial.

Outra ação que sugerimos à direção da SETI seria criar mecanismos para aumentar a visibilidade, no país e no exterior, das Universidades Estaduais do Paraná de melhor desempenho. Por exemplo, com a criação de Programas Anuais de Professores Visitantes residentes no país e no exterior. Algumas das Universidades públicas de nosso Estado, por exemplo, a UEM, adotam este procedimento para uma ou duas das grandes áreas do conhecimento e, com excelentes resultados.

Outro exemplo seria a oferta de bons cursos de graduação direcionados para atrair talentosos alunos brasileiros e estrangeiros. Outra ação seria as Universidades Estaduais (ao menos as de melhor desempenho) sediarem periodicamente relevantes eventos científicos nacionais e internacionais. A UEM é uma das instituições públicas que tem sediado diversos eventos científicos. Acreditamos que a Academia Brasileira de Ciências jamais realizou alguma de suas reuniões científicas no Paraná. A direção da SETI em conjunto com a direção da Fundação Araucária poderia pensar nessa possibilidade.

Ao visualizarmos por meio de uma visão panorâmica, as deficiências atuais do Sistema de Ensino Público Superior do Estado que envolve também C & T e, ao sugerirmos processos de correção para a formação, em longo prazo, de um excelente Sistema Público de Ensino Superior para o Paraná, percebemos que o processo dependerá de uma política pública indutora e financiadora, a ser realizada e praticada pela administração central do Estado, por intermédio de seu instrumento legal a SETI.

Para tal é necessário e suficiente que as pessoas responsáveis por esta ação e as pessoas a serem envolvidas em sua elaboração e execução sejam qualificadas, experientes e conhecedoras do assunto. Curiosos e neófitos devem ser excluídos desse processo.

Sugerimos que a direção central do Estado não deve esperar que as ações em financiamento público em C & T e em Ensino Superior no Paraná fiquem a cargo do governo federal. Devem esquecer o desejo de alguns para que o governo federal federalize, senão a totalidade, algumas das sete Universidades Estaduais, responsabilizando-se assim pelo financiamento delas.

Julgamos um grande erro esse pensamento. Mesmo porque no caso de divergências políticas partidárias entre governo estadual e o governo federal haverá a possibilidade de retenção de verbas federais direcionadas para C & T e Ensino Superior, destinadas ao Paraná, fato que trará grande prejuízo para o desenvolvimento científico, tecnológico, industrial, agrícola, comercial do Estado. A história política brasileira é pródiga nesses exemplos.

Somos de opinião que a administração central do Estado deve pensar no enxugamento do sistema. Na redução do número de Universidades Estaduais, mantendo apenas as de melhor desempenho segundo critérios das avalições trienais da CAPES e critérios de avaliação da SETI.

Lembramos que só os Estados (e as nações) que investem pesado em educação escolar de boa qualidade, em ciência e em tecnologia de excelência resistem aos distúrbios econômicos que assolam o Planeta Terra de tempos em tempos.

É necessário que sejam planejadas metas e ações e, sejam criadas estruturas balizadores para que no futuro próximo o Estado do Paraná se destaque na geração, produção e uso de ciências e tecnologias exponencialmente desenvolvidas. Sem ensino superior de excelente qualidade, não haverá no Paraná pesquisa científica nem tecnológica de excelente qualidade. Sem pesquisa científica e tecnológica de excelente qualidade, não haverá desenvolvimento científico nem tecnológico no Estado. Sem desenvolvimento científico e tecnológico, não haverá desenvolvimento exponencial na agricultura, na economia e na indústria compatível com a grandeza do Paraná.

O futuro do Paraná dependerá da prioridade a ser escolhida pelo gestor principal, que iniciará sua administração em 2015, para criação e manutenção de um excelente Sistema Publico Estadual de Ensino Superior. Sem possuir ao menos uma Universidade de excelência o Paraná terá grandes dificuldades em atrair indústrias de ponta para seu território. Indústrias que necessitam de recursos humanos de alta qualificação.

Le jeu est faite.



Ano VIII  julho 2014




                                                                                  Submundo acadêmico*


                                                                                                                 Luis Vieira


Introdução

Em matéria anterior, "Qualis sob suspeita", alertamos sobre a propagação de periódicos questionáveis no sistema acadêmico brasileiro, sob a chancela da CAPES através da inclusão desses periódicos no Qualis. No Brasil, assim como no exterior, a publicação de artigos científicos tornou-se a medida preponderante para o acesso e progressão nas universidades.

Com a imitação do modelo Americano "Publish or Perish", a competição para publicar artigos foi acirrada no mundo todo. Pressionados por suas instituições, alguns pesquisadores escolhem o caminho mais curto e condenável. Esse caminho consiste em escolher periódicos cujo tempo para publicação seja relativamente curto. A maneira que esses periódicos utilizam para oferecer uma redução do tempo para publicação é através da simplificação do processo de revisão pelos pares (peer-review-process). Por esse motivo, utiliza-se o eufemismo questionável para tais periódicos. Em muitos deles, a revisão pelos pares simplesmente não existe, conforme demonstrado em 2013 por John Bohannon.

Com a demanda surge a oferta. Empreendedores não muito escrupulosos passaram a oferecer o serviço de publicação de artigos visando em primeiro lugar o interesse monetário e, em segundo lugar, o interesse científico. Enquanto no sistema tradicional, a receita das editoras provem das assinaturas, no sistema "open-acess-ouro" ela provem principalmente da taxa de publicação paga pelo autor ou por sua instituição. Em geral, os valores variam de $ 200 USD até $ 1000 USD por artigo e o tempo de publicação reduzido para poucas semanas. No Brasil, periódicos questionáveis estão listados no Qualis, ocultando assim a sua natureza e enganando pesquisadores com pouca experiência, que são levados a publicar nesses periódicos justamente porque estão listados pelo Qualis.

Convém enfatizar que com uma revisão superficial ou mesmo nenhuma revisão, o conteúdo científico dos artigos fica bastante prejudicado. Nos exemplos a seguir, apresentam-se os riscos que esse atalho representa para a vida acadêmica.


DAVID PUBLISHING


Uma busca avançada no Google (scam OR fraud "David Publishing") encontrará muitos websites alertando que a editora é um embuste (scam) ou uma fraude (fraud). Muitos dos periódicos dessa editora estão listados no Qualis.

Em Fev/2012, Jeffrey Beall escreveu:
http://scholarlyoa.com/2012/02/29/david-publishing-flipping-its-model/
Embora esta editora alegue estar sediada em Libertyville, Illinois, EUA, ela realmente parece operar na China. A página inicial mostra uma vista do Parque Industrial Libertyville, a suposta base de operação, como que para provar que opera nos EUA. A operação parece ter abandonado Libertyville, e a informação de contato agora mostra endereço em El Monte, Califórnia.

Também é possível que este website seja uma fraude total. É uma operação chinesa e todas as páginas do website são lentas para carregar. Poderia ter sido criado principalmente como um lugar para que os autores chineses obtenham crédito em publicações estrangeiras. O governo chinês tem programas de incentivo com recompensas monetárias para estudiosos chineses que publicam no exterior.

Chinese Business ReviewB3
Computer Technology and ApplicationB4
Journal of Agricultural Science and Technology AB1
Journal of Agricultural Science and Technology BB1
Journal of Agricultural Science and TechnologyB1
Journal of Chemistry and Chemical EngineeringB2
Journal of Civil Engineering and ArchitectureB1
Journal of Communication and ComputerB3
Journal of Energy and Power EngineeringB4
Journal of Environmental Science and EngineeringB2
Journal of Food Science and EngineeringB2
Journal of Food Science and EngineeringB2
Journal of Life SciencesB4
Journal of Materials Science and Engineering AB3
Journal of Materials Science and Engineering BB3
Journal of Materials Science and Engineering B2
Journal of Mathematics and System ScienceB5
Journal of Mechanics Engineering and AutomationB5
Journal of Modern Accounting and AuditingB3
Journal of Physical Science and ApplicationB4
Journal of Shipping and Ocean EngineeringC
Journal of US-China Medical ScienceB4
Journal of US-China Public AdministrationB5
Journal of US-China Public AdministrationC
Journalism and Mass CommunicationB4
Sociology StudyB5
US-China Education Review AB1

Obs. O conceito Qualis aposto corresponde ao maior dentre as áreas que incluem o periódico, isso vale também para as tabelas seguintes.


SCIENCE PUBLICATIONS


O seguintes periódicos estão listados no Qualis, onde convém notar, a maioria classificada em B2. Uma pesquisa no website da editora, encontrou mais de uma centena de artigos procedentes de universidades brasileiras, inclusive das melhores posicionadas no cenário internacional.

American Journal of Agricultural and Biological SciencesB2
American Journal of Animal and Veterinary SciencesB3
American Journal of Applied SciencesB2
American Journal of Biochemistry and BiotechnologyB4
American Journal of BioinformaticsC
American Journal of Environmental SciencesB2
American Journal of ImmunologyB2
American Journal of Infectious DiseasesB2
American Journal of NeuroscienceB4
American Journal of Pharmacology and ToxicologyB2
American Medical JournalB4
Journal of Computer SciencesB2
Journal of Mathematics and StatisticsB2
Online Journal of Biological SciencesB2

O tempo de revisão é muito curto (4 a 5 semanas), o que é uma característica dos periódicos questionáveis, além de cobrar $ 525 USD por artigo publicado. Os periódicos marcados com (*) estão oferecendo uma promoção para artigo submetidos no mes de Julho de 2014: "There are no article processing charges for manuscripts that are submitted during July 2014". Será que veremos pague 1 e publique 2? Esse caso é evidência de como o QUALIS está orientando equivocadamente os pesquisadores brasileiros.


SCIENCE PUBLISHING GROUP

Uma busca avançada no Google (scam OR fraud "Science Publishing Group"), revela muitas evidências e avisos de que a editora Science Publishing Group é questionável.

Em Jun/2014, Jeffrey Beall escreveu:
http://scholarlyoa.com/2014/06/17/science-publishing-group-publishes-junk-science/
Recentemente tomei conhecimento sobre o artigo que apareceu no periódico American Journal of Modern Physics - Modification of Einstein's E = mc^2 to E = 1/22 mc^2. Como você pode perceber, o artigo "corrige" a famosa equação da equivalência massa-energia de Einstein. O artigo alega confirmar a descoberta da natureza da energia escura. Na minha opinião, este artigo é um excelente exemplo de pseudo-ciência, e nenhuma editora legítima permitiria tal lixo aparecer em seus periódicos.

Em Dez/2013, Martin Rundkvist, arqueologista e editor de um periódico sobre arqueologia, escreveu o seguinte:
http://scienceblogs.com/aardvarchaeology/2012/12/13/nice-try-science-publishing-group/
A Science Publishing Group é mais um embuste perpetrado por editora de acesso aberto ou imprensa de vaidade acadêmica. Ontem eles enviaram um convite para submeter artigos, tornar-me membro de um conselho editorial, ou ainda tornar-me um revisor de um não especificado conselho editorial. "Junte-se a nós!" Mas eles nem sequer publicam um periódico sobre arqueologia. O mais próximo que eles possuem é uma desculpa miserável para um jornal chamado Ciências Sociais. Ele supostamente serve para tudo, desde a Lei até Antropologia.

Os seguintes periódicos da Science Publishing Group contém artigos, cujos autores são de instituições brasileira. O preço cobrado por artigo publicado é $ 270 USD. No total foram encontradas 42 instituições brasileiras, inclusive as mais conceituadas. Entretanto, nenhum desses periódicos está listado no Qualis. O motivo é que os periódicos são relativamente recentes, sendo que o mais antigo teve início em Nov/2012. Eventualmente serão listados no Qualis e a publicação em periódicos questionáveis será reforçada, contribuindo para a baixar a qualidade das publicações de pesquisadores brasileiros.

American Journal of Civil Engineering


American Journal of Chemical Engineering



American Journal of Environmental Protection



American Journal of Life Sciences



American Journal of Modern Physics



American Journal of Physical Chemistry



American Journal of Sports Science



American Journal of Theoretical and Applied Statistics



Advances in Materials



American Journal of Bioscience and Bioengineering



Cancer Research Journal



Education Journal



Humanities and Social Sciences



International Journal of Elementary Education



International Journal of Environmental Monitoring and Analysis



International Journal of Energy and Power Engineering



International Journal of Language and Linguistics



International Journal of Materials Science and Applications



International Journal of Nutrition and Food Sciences



International Journal of Renewable and Sustainable Energy



International Journal of Secondary Education



Journal of Anesthesiology



Journal of Plant Sciences



Journal of Surgery



International Journal of Oil, Gas and Coal Engineering



Pure and Applied Mathematics Journal



Psychology and Behavioral Sciences



Plant



Science Journal of Business and Management



Science Journal of Public Health



Science Research



Social Sciences



International Journal of Wireless Communications and Mobile Computing





SCIENTIFIC RESEARCH PUBLISHING


O seguintes periódicos estão listados no Qualis. Uma pesquisa no website da editora encontrou muitos artigos procedentes de universidades brasileiras. Com base nos 75 primeiros artigos encontrados, de uma das mais conceituadas universidades brasileiras, o tempo médio entre o recebimento e o aceite, o que significa publicação online, foi calculado em 50 dias corridos. A editora tem um chat online, aparentemente funcionando 24 horas, 7 dias por semana. Através desse chat, foi descoberto que o preço para publicação no periódico Open Journal of Physical Chemistry é $ 700 USD.

Advances in Biological Chemistry

#

Advances in Entomology

#

American Journal of Analytical Chemistry

B3

American Journal of Operations Research

B4

American Journal of Plant Sciences

B2

Applied Mathematics

B3

Advances in Materials Physics and Chemistry

B3

Agricultural Sciences

B1

Creative Education

B4

Communications and Network

#

Circuits and Systems

#

Engineering

B4

Energy and Power Engineering

B4

Food and Nutrition Sciences

B4

Health

B2

International Journal of Clinical Medicine

B4

Journal of Agricultural Chemistry and Environment

#

Journal of Biomaterials and Nanobiotechnology

B2

Journal of Electromagnetic Analysis and Applications

B5

Journal of Environmental Protection

B3

Materials Sciences and Applications

B4

Natural Science

B4

Open Journal of Biophysics

C

Open Journal of Composite Materials

#

Open Journal of Discrete Mathematics

B5

Open Journal of Endocrine and Metabolic Diseases

B5

Open Journal of Gastroenterology

#

Open Journal of Obstetrics and Gynecology

B3

Open Journal of Physical Chemistry

B4

Open Journal of Preventive Medicine

B3

Open Journal of Stomatology

B5

Open Journal of Veterinary Medicine

B3

Optics and Photonics Journal

#

Positioning

#

Psychology

A2

Soft Nanoscience Letters

#

Surgical Science

B4



MULTIDISCIPLINARY DIGITAL PUBLISHING INSTITUTE (MDPI)

Em Fev/2014, Jeffrey Beall mostrou as razões para adicionar MDPI à lista de editoras questionáveis:

1 - A editora habilmente usa os nomes e reputações de estudiosos legítimos, incluindo prêmios Nobel, para fazer a operação parecer mais legítima e aceita do que realmente é. A editora afirma que que vários Prémios Nobel estão listados em seus conselhos editoriais, mas uma investigação descobriu que eles não perceberam que foram listados.

2 - A editora tem uma grande quantidade de periódicos, muitos com nomes de uma só palavra, copiando as práticas utilizadas por periódicos legítimos, como Cell. As suas taxas de processamento artigo são elevadas e a editora lança regularmente novos periódicos.

3 - Devido à sua missão ser ganhar tanto dinheiro quanto possível, através da submissões de artigos, a editora aceita regularmente trabalhos questionáveis.

Por exemplo, um artigo de 2011 intitulado "The Australian Paradox: A Substantial Decline in Sugars Intake over the Same Timeframe that Overweight and Obesity Have Increased", levou um economista australiano a fazer campanha para a retratação do artigo.
http://www.australianparadox.com/

Um outro artigo de 2011 intitulado "Theory of the Origin, Evolution, and Nature of Life" foi publicado no periódico Life. Este artigo causou uma grande agitação na comunidade científica, documentada no seguinte link.
http://arstechnica.com/science/2012/01/how-the-cra...

Em Mai/2013, assim como outras pessoas, escrevi um texto, que descreve um artigo questionável sobre o glifosato químico publicado no periódico Entropy.
http://scholarlyoa.com/2013/05/16/more-controversy...

4 - Algumas pessoas acreditam que o objetivo da editora é principalmente lucrar com a necessidade de estudiosos na China para obter publicações "internacionais", conforme descrito no seguinte link.
http://www.2250s.com/read.php?28-20089-20672

A sede da MDPI na Suíça tem apenas cerca de meia dúzia de pessoas, mas suas filiais na China, Beijing e Wuhan, tem mais de 100 pessoas. O fato por si só indica a importância do mercado chinês.

5 - Estou ciente de que alguns dos jornais MDPI têm fatores de impacto e são indexados por serviços de indexação respeitáveis. Além disso, publicando regularmente artigos controversos pode ser uma estratégia para aumentar o fator de impacto de seus jornais, pois estes artigos são posteriormente citado em artigos de repúdio em periódicos legítimos.

Acredito que os periódicos da MDPI contém centenas de artigos revisados superficialmente e que são escritos e publicados para fins de promoção ao invés de comunicar ciência.

Uma pesquisa no website da editora, encontrou muitos artigos procedentes de instituições brasileiras, inclusive cerca de 40 artigos de uma conceituada universidade. Considerando estes 40 artigos, o tempo médio de revisão foi cerca de 50 dias e o preço médio cobrado foi cerca de $ 1500 USD/artigo. Os 40 artigos foram publicados entre os 12 periódicos seguintes que estão listados no Qualis. Convém notar que 4 estão classificados em A1.

AnimalsB5
International Journal of Molecular SciencesA1
InformationB4
Marine DrugsA1
MaterialsA1
Metabolites#
MoleculesA2
NutrientsB1
PolymersB4
SensorsA1
ToxinsB1
VirusesB1


Conclusões

Dois casos recentes, ilustram a contradição com o comportamento da CAPES, que ostenta periódicos questionáveis no Qualis, aparentemente sem preocupação com possíveis perda de credibilidade por parte da Ciência brasileira. Em Jan/2014, o Reitor da University of Pristina (Kosovo), foi pressionado a renunciar depois que foi revelado que ele publicou artigos em revistas questionáveis para atender aos requisitos da promoção a professor titular. Em Fev/2014, um professor de negócios da Universidade da Islândia, publicou artigos em periódicos questionáveis, de acordo com a Islândia notícias DV. Depois dos meios de comunicação islandeses repercutirem a história, o professor tirou a lista de publicações de seu website.

Iceland Professor in Hot Water for Publishing in Predatory Journals
http://scholarlyoa.com/2014/02/20/iceland-professor-in-hot-water-for-publishing-in-predatory-journals/

University of Pristina Rector under Fire for Publishing in Predatory Journals
http://scholarlyoa.com/2014/01/24/university-of-pristina-rector-under-fire-for-publishing-in-predatory-journals/

Uma caracteristica das editoras questionáveis é o envio indiscriminado de mensagens eletrônicas para tentar conseguir editores e revisores.Na linguagem da internet, a prática é conhecida como SPAM. Uma das consequências é enganar pessoas despreparadas em acreditar que foram convidadas por editoras legítimas. Os websites dessas editoras estão repletos de Curricula Vitae. Para encontrá-los, basta uma busca
avançado no Google.

O artigo "Qualis sob suspeita" vem repercutindo lentamente na comunidade científica brasileira, possivelmente pelo efeito anestésico da Copa do Mundo. A opção oferecida por editoras questionáveis é condenável diante das dificuldades na carreira acadêmica. No Brasil, a formação de 40 mil mestres e 10 mil doutores por ano pode ser comemorada, por um lado, e questionada, por outro. Como já indicamos em outro artigo baseado em dados do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE) parte crescente desses egressos não está conseguindo colocação no mundo acadêmico, ou a consegue de forma precária. A política de editais e programas de curta duração vai resolvendo aqui e ali problemas imediatos, sem proporcionar uma base estável e duradoura para a atividade científica no país.

* Agradecimentos ao professor Vinicius Arcaro pelos dados e discussão



Ano VIII, julho 2014


                                                                                 
                                                                                   Qu
alis sob suspeita*
                                                                                          Luis Vieira

                                                                                                                 




Introdução

No final da década de oitenta apareceram os primeiros periódicos on-line no sistema Open Access. Diante do alto custo das assinaturas dos periódicos impressos, a novidade foi muito bem recebida e difundiu-se rapidamente em todo o mundo. No Directory of Open Access Journal (DOAJ) há mais de 9000 periódicos cadastrados. No Brasil a iniciativa conjunta da FAPESP com o CNPq deu origem à Scientific Eletronic Library on Line (SCIELO) que abrange mais de 300 periódicos com acesso livre.

Na maioria das vezes, o sistema Open Access é visto com reserva pela comunidade científica tradicional e pelas grandes editoras. O principal motivo é a cobrança de taxa para publicação, disfarçada em taxa de processamento do manuscrito, em geral variando de $ 200 USD até $ 1000 USD. O conflito de interesses sempre vai suscitar dúvidas quanto à qualidade dos artigos publicados. Fator de contratação de novos professores ou pesquisadores e também promoção na carreira acadêmica, a publicação de artigos passou a ser alvo de práticas questionáveis. Existem muitos periódicos, com credibilidade conquistada durante décadas, que estão disponíveis para publicar e que nunca cobraram taxa do autor.

Periódicos Questionáveis

Entre Janeiro e Junho de 2013, John Bohannon, pesquisador e contribuinte da Science, submeteu 304 manuscritos de pesquisa com erros óbvios para serem rejeitados imediatamente por qualquer periódico. O texto completo de John Bohannon, cujo título é "Who's Afraid of Peer Review?" está disponível no website da Science. O texto simplificado, que inclue um mapa interativo, também está disponível no website da Science. O mapa mostra quais periódicos aceitaram ou rejeitaram os manuscritos, juntamente com as trocas de mensagens que levaram a esses resultados. Para os periódicos questionáveis que aceitaram publicar o manuscrito, a troca de mensagens comprova que houve pouca ou mesmo nenhuma revisão. Levantamento no WebQualis em 20/Jun/2014 encontrou 30 periódicos que aceitaram um manuscrito com erros óbvios. Entre os periódicos, os seguintes merecem destaque pela alta classificação no Qualis: (1) Bioinformation, classificado como B2 em Medicina I. (2) Drug Design, Development and Therapy, classificado como A2 em Medicina I. (3) Genetics and Molecular Research, classificado como B2 em Medicina I.


Uma lista de periódicos, editoras e métricas questionáveis, mantida e atualizada por Jeffrey Beall, professor associado da Universidade do Colorado, está disponível no website Scholarly Open Access. A questão da métrica é motivo para discussão, pois o fator de impacto associado a um periódico agrega importância ao artigo ali publicado. Ocorre que hoje há diversas instituições que calculam esse fator de forma questionável, como mostrado pelo citado professor. Um dos casos escandalosos é o Archives of Biological Sciences, que
aceitou um manuscrito em 24 horas, sem revisão alguma, por $ 1875 Euros. Outro é o International Journal of Engineering Research and Applications, que alega ter recebido um prêmio do JourRank- uma instituição que nem sequer existe.

No Brasil, a classificação de periódicos pelo sistema Qualis tem um impacto na avaliação de professores, pesquisadores, programas de pós-graduação e pedidos de auxílio monetário. Erros nessa base de dados podem ter impactos negativos sobre a produção científica brasileira que vem caracterizando-se mais pela quantidade, do que pela qualidade, e assim mesmo em níveis inferiores a países como Espanha, Índia e Coreia do Sul. Levantamento no WebQualis em 20/Jun/2014 encontrou 47 periódicos que satisfazem os critérios para periódicos questionáveis.


Critérios

lista de periódicos questionáveis do professor Jeffrey Beall baseia-se nos seguintes critérios extraídos dos códigos de conduta da Open Access Scholarly Publishers Association, do Committee on Publication Ethics e da International Association of Scientific, Technical & Medical Publishers.

  • O dono da editora é identificado como o editor de todos os periódicos publicados pela organização.
  • Nenhum indivíduo é identificado como editor do periódico.
  • O periódico não identifica um conselho editorial ou de revisores formais.
  • Nenhuma informação acadêmica é fornecida a respeito do editor, corpo editorial e/ou membros do conselho de revisores (por exemplo, afiliação institucional).
  • Existem dados evidentes mostrando que o editor e/ou membros do conselho de revisores não possuem experiência acadêmica para qualificá-los razoavelmente como guardiões de publicação no campo da revista.
  • Dois ou mais periódicos têm conselhos editoriais duplicadas (ou seja, o mesmo conselho editorial para mais de um periódico).
  • Os periódicos têm um número insuficiente de conselheiros, conselhos editoriais inventados, inclusive nomes, incluem estudiosos em um conselho editorial, sem seu conhecimento ou permissão, têm membros do conselho que são pesquisadores proeminentes, mas isentá-os de quaisquer contribuições para a revista, exceto o utilização de seus nomes e/ou fotografias.

lista de editoras questionáveis do professor Jeffrey Beall baseia-se nos seguintes critérios extraídos dos códigos de conduta da Open Access Scholarly Publishers Association, do Committee on Publication Ethics e da International Association of Scientific, Technical & Medical Publishers.

  • A editora demonstra uma falta de transparência nas operações de publicação.
  • A editora não tem políticas ou práticas para a preservação digital.
  • A editora depende de taxas do autor como único e somente meio de operação, sem alternativa de plano de negócios de longo prazo para sustentar a revista através de outras fontes de renda.
  • A editora começa a operar com um grande número de periódicos, muitas vezes utilizando um modelo para criar rapidamente website para cada periódico.
  • A editora fornece informações insuficientes ou oculta informações sobre taxas do autor, oferecendo-se para publicar o manuscrito. Depois envia uma cobrança não revelada anteriormente.
  • O nome de um periódico é incongruente com a missão da periódico.
  • O nome de um periódico não reflete adequadamente a sua origem (por exemplo, um periódico com a palavra Canadense ou Suiço em seu nome que não tem nenhuma relação significativa com o Canadá ou Suíça).
  • A revista falsamente alega ter um fator de impacto, ou usa algum medida inventada (por exemplo, fator de visão), fingindo posição internacional.
  • A editora envia mensagens não solicitadas (spam) requisitando comentários de pessoas não qualificadas para a revisão de manuscritos submetidos.
  • A editora falsamente alega ter seu conteúdo indexado nos serviços de Resumos e Indexação legítimos ou afirma que o seu conteúdo é indexado em recursos que não são serviços de Resumo e Indexação.
  • A editora dedica recursos insuficientes para prevenir e eliminar má conduta do autor, na medida em que o periódico ou periódicos sofrem de repetidos casos de plágio, a auto-plágio, manipulação de imagem, e coisas semelhantes.
  • A editora pede ao autor correspondente sugerir os revisores e a editora posteriormente utiliza os revisores sugeridos sem examinar suficientemente as suas qualificações ou autenticidade. Este protocolo também pode permitir aos autores criar identidades on-line falsas, a fim de rever os seus próprios manuscritos.

David Publishing pode ser tomada como exemplo de editora questionável. Basta fazer uma busca avançada no Google (scam OR fraud "David Publishing") e serão encontrados muitos websites alertando que a editora é um embuste (scam) ou uma fraude (fraud). Muitos dos periódicos dessa editora estão listados no Qualis.

Conclusão

A base Qualis lista e qualifica os periódicos que serão considerados nos relatórios e currículos dos pesquisadores. Em virtude da limitação e concentração de recursos, há hoje uma dura competição entre pares pela aprovação de seus projetos. Por esse motivo, não deve pairar nenhuma dúvida sobre os periódicos listados pela CAPES, pois periódicos questionáveis podem levar a favorecimentos indevidos e à perda de qualidade da produção científica nacional. Cabe, portanto, um posicionamento claro da CAPES a esse respeito, justificando a permanência ou não desses periódicos em sua base.

* Agradecimentos ao professor Vinicius Arcaro (UNICAMP) pelas informações e discussão.



Ano VIII, Julho de 2014
                                                                                                            




                                                                                        
Desde Leiden
                                                                                                                 Luis Vieira



O Centro de Estudos de Ciência e Tecnologia (CWTS) da Universidade de Leiden, Holanda, divulgou uma avaliação sobre a pesquisa no Brasil no período 2003-2012. Os dados são baseados no Web of Science produzido pela Thomson Reuters. Como diferencial em relação a outras avaliações, o estudo do CWTS oferece a opção de se considerar indicadores que independam do tamanho da instituição e que contabilizem fracionadamente a participação de cada instituição em trabalhos comuns. Há ainda opções para avaliar cooperação internacional e intranacional, assim como trabalhos desenvolvidos em parceria com empresas. A área de humanas é muito crítica a esses rankings porque há poucos periódicos nacionais dessa área classificados no Web of Science, além de restrições de ordem metodológica. A iniciativa coloca a Universidade de Leiden no disputadíssimo mercado das consultorias globais de projetos educacionais. O estudo foi bem recebido por instituições menores ou mais novas no cenário acadêmico brasileiro como a UFABC, a UFG e a UESA que graças a alguns indicadores puderam se destacar diante dos gigantes estatatais como USP, UNICAMP, UFRJ e UFMG. A fim de evitar maiores polêmicas vou me restringir a comentar os dados da área de Matemática, Computação e Engenharias da região sudeste. Na tabela seguinte a ordenação por número de trabalhos publicados (P). As demais colunas designam respectivamente: TCS – número absoluto de citações; TNCS – número padronizado de citações; P(top 10%) – número de trabalhos no decil superior de qualidade.



Apresentamos agora a ordenação pela coluna P(top 10%), algumas instituições como o IMPA, a PUC-Rio e a UFABC sobem posições de acordo com esse critério.




Se agora considerarmos a produtividade e a contagem fracionada a ordenação pela última coluna sofre uma alteração considerável. Instituições menores em tamanho e do interior passam a se destacar nos primeiros lugares.




Estas tabelas tiveram por base o impacto dos artigos publicados em periódicos indexados conforme comentamos antes. Tomando agora como critério a cooperação interinstitucional temos para uma contabilização absoluta a seguinte tabela aonde: P(intcollab) - colaboração internacional; P(UI collab) – colaboração com a indústria; P(<100km) – colaboração local; P(>1000 km) – colaboração a distância. Nesse caso destaca-se a baixa cooperação com a indústria de um modo geral.



Quando se considera a contabilização relativa a tabela sofre uma mudança radical, naturalmente as instituições menores buscam maior cooperação. A exceção nesse caso fica por conta da Petrobras. Esse quadro nãos se altera em relação à indústria, de uma maneira geral, com pouca iteração.



O uso de uma contabilidade relativa revela a produtividade de instituições menores que são prejudicadas pelo efeito estatístico das grandes instituições na obtenção de recursos junto às agências financiadoras. A colaboração com instituições internacionais é bastante razoável, mas com a indústria é muito baixa, e estamos tratando da região mais industrializada do país.



Ano VIII Junho 2014




                                             
O Circo da Copa do Mundo não é lugar para demonstrações médicas
                                                                                                                 Luis Vieira



A imagem pouco transmitida mais comentada nas redes sociais é a de um experimento há muito anunciado pela equipe de um neurocientista brasileiro – fazer um paraplégico dar o chute inicial da Copa do Mundo usando um exoesqueleto desenvolvido por sua equipe. Simpático ao regime, contou com o apoio do então Ministro da Ciência e Tecnologia para criar um instituto de pesquisas no Rio Grande do Norte. Trouxe da Universidade de Duke, nos EUA, aonde trabalhou, o know-how para a recuperação de deficientes físicos a partir de equipamentos ligados diretamente ao cérebro do paciente. Aqui no Brasil, atritos no interior de sua equipe provocaram a evasão de muitos de seus membros, mas o trabalho continuou assim mesmo e a meta de fazer um show ao vivo na abertura da Copa encantou o governo brasileiro que deu luz verde para o evento.

Sem prejuízo aos benefícios à medicina que seus trabalhos possam trazer, a escolha da abertura da Copa do Mundo, que é puro entretenimento e comércio, para a divulgação de um experimento delicado e dramático para um paciente, não podia ter sido mais infeliz. Um torneio para-olímpico poderia ser uma alternativa mais apropriada. Não sei até que ponto Sociedades Médicas ou Científicas endossaram a iniciativa. Em uma reunião na Academia Brasileira de Ciências, ouvi de um palestrante crítica à natureza dos experimentos que estavam sendo conduzidos pelo pesquisador e sua equipe. Mas, tanto quanto se saiba, não houve nenhuma manifestação pública desaconselhando a prática.

O cuidadoso andamento da cerimônia de abertura que deveria ser descontraído e animado, sem maiores constrangimentos, inibiram destaque à demonstração que transcorreu discretamente num lado do campo, sobre um pequeno tapete. O desmoronamento das instituições e de um norte ético estão criando um ambiente de indiferença e tolerância. Nesse caso, ao menos há supostamente um objetivo nobre, mas a qual preço?


Ano VIII junho 2014
                                                                               




                                          A questão da representação nos colegiados das universidades estatais
                                                                          O caso da EEFD da UFRJ

                                                                                                            Luis Vieira


Democracia é um conceito amplo que toma diferentes formas dependendo de quem o defende. Não se restringe à forma de governo, permeia todas as instâncias da sociedade, sejam elas privadas ou públicas. Um estigma que qualquer dirigente, administrador ou governante evita hoje é ser acusado de não democrático. Não se trata, necessariamente, de justiça ou eficiência, mas de um valor que se tornou inseparável da gestão. Nada mais natural, portanto, que as universidades estatais constituíssem exemplos de gestão colegiada e de campo de ensaio para o exercício da democracia direta, ou seja, um processo deliberativo que passa à margem da estrutura formal da universidade, embora ainda se imbrica a ela no momento de fazer valer as decisões perante seu corpo social e a sociedade.

Tomando como caso a Universidade Federal do Rio de Janeiro, temos o exemplo da escolha do Reitor, feita por voto direto ponderado em um terço para cada categoria (alunos, professores e funcionários), mas formalizada em termos de uma lista tríplice submetida ao Ministro da Educação que supostamente deverá confirmar o primeiro nome indicado. Nos seus numerosos colegiados vem se tornando um hábito a indicação via órgãos de classe – sindicatos, centros acadêmicos, etc., dos respectivos representantes de categorias. Assim o Centro Acadêmico (C.A.) dos alunos de uma determinada unidade, ao invés da sua administração formal, organiza o processo de indicação dos representantes discentes nos colegiados correspondentes. É exatamente esse conflito entre o formal (que em alguma época foi objeto de um consenso) e o casual (que algum dia poderá ser formal) que tomou proporções destacadas no caso da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD). O seu diretor pretende seguir a lei vigente – Lei da Representação Estudantil (7.395/85), estatuto e regimento da universidade, que não indicam com clareza (exceto no caso do seu conselho superior - CONSUNI) quais representantes devam ser indicados via organizações estudantis. O C.A. da EEFD pretende o contrário e organiza à sua maneira um desafio à administração da unidade. A questão foi parar no CONSUNI que decidiu em favor dos estudantes, mas o CONSUNI não está acima da lei e há um parecer da Procuradoria com resultado diferente.

A questão central, entretanto, não é essa. O que está em jogo é o controle do estado. O que ocorre na UFRJ, ocorre em outras universidades, autarquias e empresas públicas e é consequência da disputa pela ocupação e controle da máquina pública. Isso é feito via organizações tradicionais como sindicatos, centros acadêmicos, associações profissionais, como também por movimentos com uma causa específica – MST, MTST, entre outros. A burocracia e o edifício jurídico da sociedade brasileira estão sendo desafiados por uma infinidade de grupos, movimentos e ações que foram, em um dado momento, estimulados pelos atuais governantes, mas que eles hoje não conseguem mais controlar. A mesma reitoria que apoia o C.A. da EEFD, ao invés de exercer um papel moderador, foi vencida pelos estudantes no caso da Empresa de Serviços Hospitalares (EBSERH). Gradualmente as instâncias do poder público se tornam erráticas ou paralisadas.

Voltando ao tema da democracia cabe a seguinte questão, são as ditas organizações sociais (tradicionais e novas) democráticas? Atuam de forma independente de partidos? São transparentes? Se há hesitação na resposta, é justo exigir que um professor, aluno ou funcionário deva se dirigir ao seu sindicato para eleger um representante na estrutura da universidade? Projeto do PCdoB na Câmara pretende que sim, mas ainda não foi votado e esse fato soma a favor da interpretação da direção da EEFD e nos alerta para a necessidade de combatê-la também no Congresso Nacional.


Ano VIII, maio de 2014

Comentários recebidos


Me parece que hoje esta questão é muito importante para a Universidade pois o que está em jogo é o processo democrático. Devemos garantir uma representação legítima de nossas categorias no processo de ocupação de colegiados que são decisórios e vão definir o rumo da Instituição. Hoje vivemos a situação de reitores ¨eleitos¨ e sem o poder de executar seus projetos de campanha, sendo acuados por representantes de minorias que não refletem o desejo de nossas comunidades. Profa Vera Halfoun/Faculdade de Medicina



                                                               
                                         
As 100 Melhores Universidades Jovens da Terra em 2014 e o Contexto Brasileiro

                                                                                                         Clóvis Pereira – UFPR



No dia 30 de abril de 2014 o Times Higher Education - THE, da Thomson Reuters, divulgou a versão anual de seu ranking, um dos mais importantes do mundo, com as 100 melhores Universidades jovens do Planeta Terra. Isto é, instituições de ensino superior com menos de 50 anos de idade.

Este ranking fornece um vislumbre do futuro para as instituições em ascensão, que mostram um grande potencial que lhes permitirá a obtenção da excelência. Daí sua importância para a comunidade acadêmica internacional e para os gestores das instituições listadas.

No ranking são analisadas cinco áreas: inovação, ensino, influência da pesquisa, volume de pesquisas e impressão no meio acadêmico, abrangendo investimento financeiro em pesquisas, total de docentes da instituição, a qualificação dos docentes, total de alunos estrangeiros na instituição, total de publicações em revistas científicas, dentre outros itens. Uma das ferramentas usadas para esta medição é a entrevista com 10.500 pesquisadores do mundo inteiro.

Segundo THE a metodologia para o ranking 2014 das instituições de ensino superior jovens, foi cuidadosamente recalibrada para refletir as características especiais das universidades mais jovens. Por exemplo, dando menor peso aos indicadores subjetivos de reputação acadêmica.

Chama nossa atenção, mais uma vez, o fato de que dentre as várias instituições brasileiras, públicas e privadas, nesta faixa de idade, a Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP se manteve como a única instituição brasileira na lista das 100 melhores da Terra. A UNICAMP tem se mantido neste ranking desde 2012.

Ela conseguiu a 37ª posição com o total de 41,1 pontos. Na versão do ranking referente a 2013, a UNICAMP havia obtido a 28ª posição com o total de 45,4 pontos. Assim, no espaço de um ano ela perdeu nove posições no ranking acima citado, fato não usual. A luz amarela está acesa para seus gestores.

Na versão do mesmo ranking referente ao ano de 2012, a UNICAMP havia obtido a 44ª posição, com o total de 35,8 pontos. Esta variação para cima e para baixo no período de dois anos, de 2012 para 2014, deve servir como um alerta para os gestores da UNICAMP, pois nenhuma instituição de ensino superior varia tanto em tão pouco tempo em aspectos relevantes, exceto se ela está passando por um momento de grande expansão. Este talvez não seja o caso da UNICAMP.

Segundo o resultado do ranking 2014 e anteriores, os responsáveis pela gestão do SNG como temos alertado, têm muito que fazer com respeito à melhoria de qualidade e de desempenho das instituições de ensino superior do Brasil. Terão competência para tal?

Sabemos que para o país competir com qualidade e possa assumir posição de destaque no mundo globalizado do conhecimento científico e tecnológico é necessário um choque de gestão no SNG que, atualmente é de má qualidade. Vemos claramente que há um sério problema no que diz respeito à elaboração de planos, prospectiva e planejamento estratégico para o SNG, e a prática de políticas públicas exclusivas para o SNG, por parte da administração federal.

É um fato visível que, além da necessidade de possuir corpos docentes qualificados as instituições públicas de ensino superior do Brasil, precisam de mais investimentos financeiros. É necessário também, que seus gestores trabalhem no sentido de internalizar a internacionalização das ciências e das tecnologias. Em algumas poucas instituições públicas este processo está ocorrendo de modo tímido há alguns anos.

Com respeito à destinação de mais recursos financeiros para as instituições públicas de ensino superior jovens ou não, percebemos que, pelo andar da carruagem, o país está cada vez mais distante desse ideal, haja vista o Orçamento Anual da União para 2014.

De um total de R$ 2,383 trilhões, previstos para o Orçamento de 2014, a administração federal escolheu (fez a escolha errada) destinar apenas 4,49% para a educação e, destinou o percentual de 42,04% para pagamento de juros e amortizações da dívida. Uma dívida sem fim.

Aliás, nada de novo existe nas escolhas erradas de várias administrações federais ao longo dos últimos doze anos no que diz respeito aos percentuais, nos Orçamentos Anuais da União, destinados à educação. No Orçamento para o ano de 2013, o governo federal destinou apenas 3,70% para a educação. Se observarmos os Orçamentos de anos anteriores, então iremos perceber percentuais semelhantes destinados à educação.

Vejamos dois exemplos de escolhas corretas feitas por seus dirigentes para os sistemas educacionais de seus países. Se nos determos nas leituras das informações dos percentuais existentes nos dados dos Orçamentos Anuais da China e da Coreia do Sul, para 2014, observamos que são respectivamente, 30%, e mais de 30% que seus dirigentes destinaram à educação.

Ao compararmos estes dados com os acima citados referentes ao Brasil, poderemos visualizar a falta de respeito, o desprezo e a falta de comprometimento para com o sistema brasileiro de ensino, que diversas administrações federais têm tratado a sociedade brasileira que paga impostos e vota. É um nonsense.

A má qualidade do SNG está levando o Brasil à rabeira do competitivo mundo globalizado em termos de conhecimento humano em desenvolvimento científico e tecnológico, em pesquisa científica.

Em geral, o SNG tem graduado brasileiros com dificuldades intelectuais e técnicas para resolver os triviais e os não triviais problemas que veem afligindo a nação. Acrescentemos a este quadro a falta de apoio financeiro aos jovens pesquisadores brasileiros. Um nonsense.

Talvez seja necessário lembrar aos administradores do país que é a Universidade que forma profissionais que irão, preferencialmente, assumir cargos de comando na administração pública brasileira. Que irão se dedicar ao trabalho de ensino, pesquisa científica e tecnológica básica e não básica.

Na classificação geral do THE 2014, a Coréia do Sul ficou com a 1ª e 3ª posições, com respectivamente, a Universidade de Ciência e Tecnologia Pohang, com o total de 69,8 pontos (esta instituição se mantém na 1ª posição desde o ranking THE de 2012) e o Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Korea, com o total de 67,4 pontos (esta instituição manteve a mesma posição desde o ranking de 2013. No ranking de 2012 ela havia obtido a 5ª posição). A segunda posição coube à École Polytechnique Fédérale de Lausanne, Suíça, com o total de 68,3 pontos. Esta instituição mantém a 2ª posição desde o ranking de 2012.

Quando introduzimos os resultados do ranking THE 2014, para o contexto do SNG e analisamos inicialmente as jovens Universidades públicas brasileiras, não nos causa surpresa a inclusão apenas da UNICAMP, pelo fato de que há vários anos as administrações federais esforçam-se por destruir a qualidade do Sistema Nacional de Graduação – SNG. Temos alertado a parte culta e bem informada da sociedade brasileira para este fato.

Diga-se também que diversas administrações estaduais de Estados que possuem suas Universidades, têm sido incompetentes na gestão da qualidade dessas instituições. Neste quadro excluímos o Estado de São Paulo com suas três Universidades estaduais.

Neste contexto, o que diz respeito às jovens Instituições brasileiras privadas de ensino superior também não nos causa surpresa a não inclusão de nenhuma delas. O motivo é simples, seus proprietários buscam apenas o lucro com a venda do produto e, com a conivência do órgão federal fiscalizador, o diploma de má qualidade. Eles não estão preocupados nem comprometidos com a excelência do produto ofertado.

Quais as causas do efeito que vivenciamos em relação à ausência de excelente desempenho das instituições brasileiras de ensino superior no contexto nacional e internacional? À ausência de prospectivas e planejamento estratégico para o SNG? Sabemos que a ciência e a tecnologia devem ser consideradas, pelo bom gestor do país e dos Estados, como fatores sociais estratégicos para o progresso e bem estar da sociedade brasileira e também para o fortalecimento e soberania do Brasil.

A resposta óbvia às indagações acima está na má qualidade dos administradores do país e dos gestores do SNG. Lembramos que nos últimos doze anos o governo brasileiro mudou, a cada dois anos, o Ministro da Educação e seus auxiliares diretos. Não há sistema que se torne consistente com tais procedimentos.

Quando há boa qualidade e bom senso para estes gestores, como tem acontecido no Estado de São Paulo, as instituições de ensino superior florescem e prosperam. Em caso contrário, os atos dos péssimos gestores refletem as ações, metas e planejamentos que têm comprometido o SNG e o país.

Para o bem do Brasil e de seus filhos, urge que seja iniciado o longo processo para salvar a jovem Universidade brasileira, antes que seja destruída por ações governamentais populistas e enganadoras que, são dirigidas para a maior parte da população brasileira que é
inculta e desinformada. Lembramos que a ignorância é a mãe de todos os males sociais.


Ano VIII, Maio de 2014



                                                                 



Carta Aberta aos Pré-Candidatos ao Cargo de Presidente da República

Clóvis Pereira – UFPR; Leandro Filho – UFRJ; Luis Vieira – UFRJ



Senhores Pré-Candidatos:



Os signatários desta carta aberta, membros da comunidade acadêmica brasileira e ativistas no âmbito do Observatório da Universidade – OBSUNI, que comemora seu oitavo ano de existência, no dia 21 de Abril, atentos ao processo de globalização do ensino superior,
além de preocupados com a urgente necessidade quanto ao início de um processo de reformas que resgate a excelência da Universidade brasileira, bem como a qualidade de todo o Sistema Brasileira de Ensino (SBE), cada vez mais combalida também no âmbito da educação básica, conforme verificado pelos baixíssimos níveis de desempenho apurados de forma recorrente pelos organismos nacionais e internacionais que medem e avaliam os principais resultados dos processos de educação em nosso país.

Vêm por meio desta propor aos pré-candidatos ao cargo de Presidente da República na eleição de outubro deste ano de 2014, algumas ressalvas, ao candidato que for eleito, para o comportamento administrativo quando das escolhas e das tomadas de decisões nos negócios da educação escolar brasileira. Em especial, nas tomadas decisões para a administração do Sistema Nacional de Graduação (SNG).

Nos meses que antecederam a eleição para Presidente da República do ano de 2010, o Observatório da Universidade produziu um documento sobre o mesmo tema, a má qualidade do Sistema Brasileiro de Ensino, no qual enfatizava aos candidatos a necessidade urgente de início do processo de reformas do Sistema Brasileira de Ensino. Este documento, intitulado A Indispensável Reforma do Sistema Brasileira de Ensino, encontra-se nos arquivos do blog acima citado (agosto de 2010). Sugerimos sua consulta por parte dos pré-candidatos, pois continua atual.

Infelizmente, o documento citado acima, que foi enviado ao Congresso Nacional por intermédio de um Senador, jaz sepultado em alguma gaveta da máxima instância parlamentar do país bem como na Administração Federal, como acontece aos assuntos relacionados às iniciativas que propugnam o início de um sério processo para melhorar a qualidade do Sistema Brasileiro de Ensino. Parece prevalecer, entre os fátuos que tomam decisões na administração federal, além da falta de respeito à sociedade brasileira, a máxima popular.

Quanto pior a qualidade da educação escolar brasileira melhor para quem dirige o país. Mais fácil e cômodo será programar ações sociais populistas, que iludem a grande massa inculta e desinformada da nação formada por cerca de 60 milhões de habitantes que habitam as periferiasdas cidades e os grotões esquecidos da nação.



Como é do conhecimento da parte culta e bem informada do país, nos dias atuais o Brasil possui um sistema de educação escolar de má qualidade que o está levando à rabeira do competitivo mundo globalizado em termos de conhecimento humano em desenvolvimento científico e tecnológico. Para resultados sobre o desempenho e a qualidade do ensino fundamental e médio basta ler os relatórios produzidos pelo PISA.

Por sua vez, o Sistema Nacional de Graduação – SNG, por exemplo, forma brasileiros com dificuldades intelectuais e técnicas para resolver os triviais e os não triviais problemas que veem afligindo a nação como: saúde e segurança públicas, saneamento básico, meio ambiente, construção de aterros sanitários para as cidade vilas e colônias, transporte coletivo, falta de moradias, falta de empregos, inclusive de empregos qualificados, geração, produção e distribuição de energia elétrica em larga escala a partir de fontes renováveis, preservação de mananciais de água potável, captação, tratamento e distribuição de água potável para a população brasileira, produção e distribuição de alimentos, uso racional do potencial do aquífero guarani, planejamento familiar, dentre outros.

Sabe-se atualmente que o bem mais precioso de uma nação é o desenvolvimento humano de sua população por ser fator de níveis elevados e sustentáveis de processos civilizatórios que nos abrem as possibilidades de adaptação em meio a um mundo em constantes transformações de diversas ordens.

Neste contexto é crucial a importância da educação superior de uma nação e da qualidade de suas Universidades. Não há nação desenvolvida que possua Universidades defasadas das estruturas mais atuais da geração e aquisição do conhecimento. Lembramos que é a Universidade que forma profissionais que irão preferencialmente assumir cargos de comando na administração pública brasileira.

O ensino superior de reconhecida qualidade constitui, por meio da reflexão e da pesquisa científica e tecnológica, o principal instrumento de incorporação da experiência científica, tecnológica e cultural acumulada pela humanidade.

Consideramos que a relevância das Universidades brasileiras (públicas e privadas) será determinada por suas capacidades de responder criativamente aos desafios contemporâneos. Elas, por sua natureza, terão que satisfazer a maior demanda da sociedade por profissionais bem qualificados e atualizados para garantir o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, agrícola, industrial, cultural e social do país.

Emerge desse contexto a necessidade do país contar com um dirigente máximo seguidor de bons princípios morais, sociais, familiares, religiosos e, com formação acadêmica compatível. Um postulante ao cargo de Presidente da República que apresente à sociedade brasileira um Plano de Governo estrategicamente estruturado e demonstrativo de que, se for eleito, estará comprometido com o país, com o bem estar da população brasileira e, não com o bem estar dos financiadores de sua campanha.

Não é demais afirmar que nosso país está sendo criado pelas ações dos dirigentes da sociedade passada e atual. Que o elemento diferenciador que está marcando e, que marcará no futuro as relações entre as nações é, e será definido pela criação e pelo uso do conhecimento que as nações fazem ou farão. Pela criação e uso de ciências e tecnologias continuamente desenvolvidas.

Invertendo a rotina habitual nessa ordem de documentos, selecionamos, a nosso ver, aquilo que não deve ser feito ou mantido no contexto das políticas para o ensino superior as quais denominamos de salvaguardas.

1. Não mudar o Ministro da Educação e seus auxiliares diretos a cada dois anos, como ocorreu nos últimos 12 anos, transformando o Ministério em catapulta para ascensão política;


2. Não utilizar de subterfúgios políticos populistas para criar, de modo atabalhoado e irresponsável e em áreas remotas do país, Universidades públicas e privadas de má qualidade, sem corpo docente qualificado, sem infraestrutura decente (salas de aulas, bibliotecas, laboratórios, telefonia, restaurantes, facilidades de acesso ao uso de internet etc.);

3. Não reproduzir na Educação e Ciência os males que afligem os outros setores do Estado que é ao mesmo tempo inchado e mínimo na prestação de serviços à população;

4. Não aportar ou induzir recursos financeiros anuais decrescentes para o Sistema de C & T destinados ao conjunto de Fundos Setoriais para apoio à atividade científica e tecnológica;

5. Não induzir a redução, mas ampliar, da massa crítica existente no sistema universitário brasileiro em atividades científica e tecnológica, massa crítica necessária para disparar e ampliar a utilização de conhecimentos científicos e tecnológicos em novos processos e novos produtos geradores de riquezas para o Brasil;

6. Não forçar, mas induzir, a criação de ambiente propício para que a comunidade científica e tecnológica do país interaja naturalmente com o setor empresarial e com o setor industrial do país para a atividade de inovação tecnológica. Sabe-se que é importante, segundo experiências internacionais, que a atividade de inovação tecnológica ocorra no interior da empresa e da indústria e, não na Universidade. Tentativas de forçar as instituições universitárias a atuar na área da inovação tecnológica não vão levar a nada, exceto ao mau uso dos recursos públicos;

7. Não persistir no equívoco, que poderá levar a um atraso no desenvolvimento industrial brasileiro, de manter a área da inovação tecnológica exclusivamente sob a coordenação do MCTI. É necessário e fundamental que o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que lida diariamente com o setor produtivo nacional, tenha uma participação mais ativa no apoio à inovação tecnológica, inclusive com recursos para apoiar o setor;

8. Não permitir que nos Orçamentos Anuais da União haja, e aumente gradativamente, o desequilíbrio entre Orçamentos destinados para pesquisa básica e para inovação tecnológica no Orçamento Global do MCTI. A pesquisa científica e tecnológica básica é a pesquisa que gera conhecimentos que não têm necessariamente aplicação imediata e, por isso ela é criticada por alguns como uma atividade ociosa e onerosa. Contudo, sabemos que o conhecimento básico de hoje será o conhecimento aplicado de amanhã;

9. Não fugir da necessidade de proceder uma reforma universitária integrada, diferentemente dos procedimentos fatiados adotados nos últimos 12 anos;

10. Não exagerar a horizontalização da gestão universitária, distribuindo excessivamente as instâncias de deliberação, o que retarda a tomada de decisões e dificulta a inadiável modernização da universidade brasileira.

Ano VIII Abril de 2014



Comentários Recebidos


Prezado Luís

A carta aberta divulgada pelo OBSUNI é uma iniciativa que se reveste de grande importância política, tanto pelo relevante papel que cumpre a universidade, ressaltado pela própria carta, quanto pelo fato de que, se levada a sério pelos candidatos (o que, infelizmente, não espero), os obrigaria a pensar um projeto de desenvolvimento nacional, que não se confunde com a panaceia do aproveitamento das vantagens comparativas, e uma política industrial como elemento central de tal projeto.
Por que concordo com esse espírito geral, gostaria de fazer duas observações de natureza crítica. Primeira, a citação da máxima popular de que “Quanto pior a qualidade da educação escolar brasileira melhor para quem dirige o país. Mais fácil e cômodo será programar ações sociais populistas, que iludem a grande massa inculta e desinformada da nação formada por cerca de 60 milhões de habitantes que habitam as periferias das cidades e os grotões esquecidos da nação.”, ainda que antecedida pela frase “Parece prevalecer, entre os fátuos que tomam decisões na administração federal, além da falta de respeito à sociedade brasileira, a máxima popular.”, induz a um erro de avaliação, pois, em maior ou menor grau, atribui a este interesse dos governantes na ignorância a causa da mesma.
Ora, para me deter apenas ao ensino universitário e à história recente, a causa é política, como sempre o é (não no sentido vulgar da teoria da conspiração, mas no de luta política por interesses institucionalizada pelo Estado); neste caso, a política de expansão universitária adotada desde a década de 1980, com grande impulso na de 1990, baseada na abertura às instituições privadas, que operam como empresas prestadoras de serviço: um dos muitos efeitos nefastos dessa política é o abandono da oferta em cursos em carreiras estratégicas (as engenharias, de modo geral, além de outras) porque exigem infraestrutura cara, o que resulta em mensalidades inacessíveis para a maioria dos estudantes brasileiros. Nesse mesmo período, sedimentou-se no Brasil a ideia de que o interesse das empresas em inovação estimularia o investimento delas em pesquisa, o que não é verdade nem nos EUA, país apresentado como modelo de liberalismo bem-sucedido, mas onde o Estado é e sempre foi o principal investidor em pesquisas científicas. Claro, a origem do investimento é estatal, mas as formas são muito diversas, o que não dá para expor aqui, tampouco sugiro a adoção daquele modelo, cito-o apenas para ilustrar a mentira que sustentou o modelo brasileiro das últimas décadas. Não é demais assinalar que, nesta primeira observação, apontei apenas um dos efeitos nefastos, mas são muitos.
A segunda observação se refere a uma matéria certamente controversa: o significado de excelência. A adoção da competitividade como critério de excelência impõe, também, a adoção de uma série de critérios de avaliação que deságua em uma série de critérios de como organizar institucionalmente a produção científica e, em última instância, no produtivismo. Salvo engano, objeto de crítica por excelência, desta lista. Por certo, uma instituição de ensino superior não pode abrir mão da excelência; entretanto, pode e, a meu ver, deve discutir o significado deste valor à luz dos problemas sociais contemporâneos. Sei que nove entre dez pesquisadores concordam como critério da competitividade, ou seja, nado contra a corrente, mas como esta é uma lista de discussão, creio poder levantar o debate. Também aqui me limitarei a um aspecto de uma questão muito complexa. Se compararmos a produção científica, em qualquer país onde ela tenha avançado desde a década de 1980, com indicadores de distribuição renda, qualidade de emprego, percepção de segurança e bem estar, é comum (embora não seja uma regra) encontrarmos uma correlação negativa. Enfim, o que essa correlação indica é que é perfeitamente possível produzir conhecimento científico sofisticado sem que isto redunde em benefício social correlato; daí que, a meu ver, o critério da competitividade deva ser substituído pelo do bem-estar social, o que implica substituir a competição pela cooperação (com as consequências que isto tem para a organização institucional da produção científica), ideia já defendida nesta lista por outros colegas. Mais uma vez, a questão é muito complexa, aqui limitei-me a indicá-la.
Abs
Jair



“Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação [o comunismo] na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.”, Marx, n’O Manifesto Comunista.

De Pinheiro J.



Luis,

De pleno acordo. Educação e infra-estrutura, prioridades de qualquer pais, comunidade ou civilização que queira crescer na direção correta.

Abs.

Geraldo





Carta Aberta ao Pré - Candidato Beto Richa
Clóvis Pereira – UFPR
Curitiba, outono de 2014
Sr. Carlos Alberto Richa
Governador do Estado do Paraná
Curitiba - PR

Como membro da comunidade acadêmica paranaense e, atento ao processo de globalização do ensino superior; preocupado, há vários anos, com a má qualidade dos cursos de graduação ofertados pelo Sistema de Ensino Superior do Paraná (formado por instituições públicas e privadas), efeito de causa maior que é má qualidade do Sistema Nacional de Graduação - SNG.

E apreensivo com o pífio desempenho dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu ofertados pelas Universidades Estaduais do Paraná, haja vista a última avaliação trienal realizada pela CAPES em 2013; venho por meio desta, sugerir fortemente ao Senhor, que é pré-candidato à reeleição, no ano de 2014, ao cargo de Governador do Estado do Paraná, a inclusão em seu Plano de Governo, na parte referente ao Sistema de C & T e Ensino Superior, as propostas que abaixo exporei.

Elas foram elaboradas e, estão sendo apresentadas ao pretendente com o intuito de oferecer reflexões e principalmente, com o propósito de contribuir com o projeto de comprometimento do pretendente com o Estado e, em especial, com o esforço para elaboração de um projeto para a melhoria do Sistema Estadual de Ensino Superior e, para o desenvolvimento e avanços das ciências e das tecnologias no Paraná.

As propostas a serem apresentadas têm também o fito de contribuir para a construção de um projeto de futuro planejado para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Estado. Isto é, de contribuir para iniciar a cultura de estudos de prospectiva e planejamento estratégico para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná, ações que certamente estarão em seu Plano de Governo.

As Universidades Estaduais do Paraná, que são em número de sete, têm, em minha visão, que estar aptas para enfrentar, quando solicitadas, o desafio de participar da formulação de políticas públicas para o Estado do Paraná, em articulação com a administração central do Estado e, com o setor produtivo do Paraná. Elas deverão também contribuir, quando instadas, com empresas e indústrias para desenvolver um ousado programa de inovação tecnológica que beneficie a população paranaense e aumente a relevância do Estado e do país no mundo globalizado.

Considero que a relevância das Universidades Estaduais do Paraná será determinada por suas capacidades de responder criativamente aos desafios contemporâneos. Elas, por sua natureza, terão que satisfazer a maior demanda da sociedade por profissionais bem qualificados e atualizados para garantir o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, agrícola, industrial, cultural e social do Estado.

Sabe-se que a ciência e a tecnologia devem ser consideradas, pelo bom gestor estadual, como fatores sociais estratégicos para o progresso e bem estar da sociedade paranaense e também para o fortalecimento do Paraná.

Os membros da academia que se dedicam, além do ensino, à pesquisa científica e tecnológica são movidos por uma profunda curiosidade intelectual de entender como as coisas funcionam. Suas descobertas podem ter imensas consequências práticas para a sociedade paranaense. Emerge daí a necessidade de constante vigilância sobre o Sistema de C & T e Ensino Superior por parte da administração central do Estado.

Surge, portanto a obrigação por parte do gestor do Estado de criar e manter no Paraná, Universidades de alto nível, isto é, instituições que abriguem bons centros de ensino profissional, de estudos, de pesquisas e de inovação, como têm sido feito, há várias décadas, na Europa, em alguns países da Ásia e também no Canadá e nos Estados Unidos da América. Este não é um processo que produz efeito a partir de médio prazo. O gestor do Paraná deve estar ciente de que os benefícios para a sociedade paranaense, advindo desse processo, virão em longo prazo.

São os egressos das excelentes Universidades que produzem excelentes ideias; que produzem ciências e tecnologias exponencialmente avançadas que darão, no futuro próximo e distante, origem a bons empreendimentos industriais, agrícolas, comerciais, e não o contrário. Não é correto esperar que as Universidades de excelência, por si sós, modernizem o sistema produtivo de um Estado ou de um país, mas elas precisam estar preparadas para responder, com qualidade, às demandas da sociedade na qual estão inseridas.

O bem mais precioso de um Estado é o seu capital humano. Investimentos em educação escolar superior de excelente qualidade, em pesquisa que gere ciência e tecnologias exponencialmente avançadas em harmonia com um bom projeto para o desenvolvimento estadual, representam a melhor estratégia para um bom gestor de um Estado que deseja atingir o ideal de bem preparar seu capital humano.

O Paraná é um Estado pujante, próspero e rico em bens humanos, naturais e materiais. É autossuficiente em geração e produção de energia elétrica. Ele vende o excedente dessa produção para diversos Estados. É o Estado maior produtor nacional de grãos. O Paraná pertence à Região mais rica do país; um Estado com um orçamento de 35 bilhões de reais para o ano de 2014; Estado com a quinta maior economia do país e que em 2012, segundo dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social – IPARDES, respondeu por 5,8% do PIB nacional.

Um Estado que respondeu, em 2012, por 7,3% das exportações nacionais; o Paraná tem bom parque industrial instalado; Estado que respondeu, em 2012, por 20,9% da produção nacional de veículos automotores; um Estado com excelente desempenho em agronegócio, agroindústria (o Paraná respondeu em 2012 por 42,97% da produção nacional de trigo, 20,66% da produção nacional de soja, 22,41% da produção nacional de milho, 23,73% da produção nacional de feijão, dentre outros produtos, segundo dados do IPARDES); na pecuária, destaca-se o Estado na avicultura, com 26,3% do total de abates do país no ano de 2012; e com um bom sistema portuário por meio do qual gera riquezas exportando e importando produtos.

O Paraná necessita e clama pela organização e manutenção de um excelente Sistema de C & T e Ensino Superior para dar prosseguimento a seu desenvolvimento científico, tecnológico, industrial, agrícola, de serviços, econômico, social e cultural. O Estado necessita de um Sistema de Ensino Superior que gradue e especialize profissionais competentes que estejam aptos para equacionar e solucionar os diferentes problemas que a sociedade lhes proponha. Profissionais que estejam aptos para entender o desenvolvimento global, para criar e usar ciência e tecnologias exponencialmente avançadas para fazer frente aos grandes desafios do mundo globalizado.

O Sistema de Pesquisa e Pós-Graduação stricto sensu do Paraná, que é formado por Universidades e Institutos públicos precisa de coordenação geral, de mais financiamento anual (é constrangedor observar que atualmente o orçamento anual da Fundação Araucária é inferior a orçamentos de FAPs pertencentes a Estados mais pobres que o Paraná); precisa de planejamento, de execução, de monitoramento e de melhor desempenho associado a maior produção de artigos publicados em revistas internacionais.

O sistema acima referido deve ser direcionado para a excelência com a formação de doutores titulados, com a consolidação dos grupos de pesquisa existentes nas diversas instituições do Estado e, com a formação de novos grupos regularmente inscritos no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. O volume de recursos disponibilizados por uma agência estadual de apoio à pesquisa científica certamente é um fator importante no estímulo à execução de projetos científicos por parte da comunidade acadêmica desse Estado.

Os gestores do Estado não devem esperar ou deixar que todas as ações em financiamento de C & T no Paraná fiquem a cargo do governo federal. Isto é um erro. Mesmo porque no caso de divergências políticas partidárias entre governo estadual e governo federal haverá a possibilidade de retenção de verbas federais direcionadas para C & T e destinadas ao Paraná, com grande prejuízo para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado.

Nesse contexto julgo que o Paraná deve olhar como exemplo nosso vizinho, o Estado de São Paulo. Este, ao criar a FAPESP em 1960 passou a obter sucesso no fomento à atividade de pesquisa científica e tecnológica. No ano de 2012 a FAPESP teve um orçamento anual de cerca de R$ 1 bilhão. As Universidades estaduais de São Paulo são as que ocupam melhores posições no ranking nacional. Elas também são anualmente citadas no ranking mundial Times Higher Education, elaborado por Thomson Reuters que elenca as 400 melhores Universidades do planeta Terra.

O THE É o único ranking global de desempenho da Universidade para julgar Universidades de excelência, ou nível mundial, em suas missões fundamentais: ensino, pesquisa, transferência de conhecimento e perspectiva internacional.De modo constrangedor nenhuma Universidade paranaense (pública e privada) tem sido citada anualmente neste ranking.

No contexto de Região Sul, o Paraná tem de modo vergonhoso, ocupado o último lugar no item desempenho do seu Sistema de Pesquisa e Pós-Graduação, haja vista a leitura dos relatórios das avaliações trienais realizadas pela CAPES em 2007, 2010 e 2013. O Paraná não oferta por parte de suas Universidades públicas e privadas, dentre seus cursos de doutorado, nenhum com nota 7, a nota máxima concedida pela CAPES.

A pesquisa acadêmica (científica e tecnológica) desenvolvida nas Universidades paranaenses (públicas e privadas) tem sido de baixo impacto no contexto acadêmico mundial e também de pequena quantidade. Mesmo quando é considerado isoladamente o contexto da Região Sul este fato é verdadeiro.
Uma das ações no sentido de corrigir parte desse desvio do sistema acadêmico paranaense, seria a comunidade acadêmica inserir-se cada vez mais (na forma de colaboração internacional) em grandes projetos com tópicos de interesse mundial desenvolvidos por importantes cientistas estrangeiros. Isto é, aumentar a colaboração internacional. Para tal mister, uma condição necessária passa por iniciativas e incentivos que devem provir dos gestores da SETI e da Fundação Araucária em conjunto com os gestores das PRPPGs das Universidades paranaenses.

Quando o pré-candidato se fixar apenas na leitura de dados contidos em trabalhos confiáveis realizados por empresas brasileiras que avaliam as Universidades do país, basta visualizar as duas áreas: Qualidade do Ensino de Graduação e Qualidade da Pesquisa que estão contidas no Ranking Universitário Folha - RUF, versões 2012 e 2013.

A leitura desses dados para as Universidades paranaenses contradiz a grandeza e a pujança do Paraná. Os dados expostos no RUF nos sinalizam um grave problema existente na gestão do Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná. Problema que tenho alertado há vários anos por meio de textos publicados no Blog Observatório da Universidade.

É chegada a hora para ser iniciado o processo de reversão desse quadro sombrio e letárgico para o futuro do Paraná. O Estado não pode esperar décadas ou séculos para ser criado um Sistema de C & T e Ensino Superior de excelente qualidade. A gestão desse Sistema precisa de um choque para melhorar sua ação e seu desempenho.

Propostas
A seguir, apresento minhas propostas que sugiro sejam incluídas em seu Plano de Governo a ser apresentado à sociedade paranaense antes das eleições de 2014. Elas são propostas estruturantes que contribuirão para ser iniciado o processo de construção da necessária infraestrutura para o bom desempenho do Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná.

1 Criar e implantar, na forma de uma Política de Estado para que haja continuidade em futuras administrações estaduais, o Plano Estadual de Capacitação de Docentes - PECD, com versões a cada cinco (5) anos, com o I PECD na versão 2015-2019.

O plano deverá ser construído com objetivos, regulamento, metas e ações bem definidos e, deverá ser gerido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - SETI. Ele deverá ter a adesão voluntária das Universidades Estaduais e poderá ser estendido, também por adesão voluntária, aos Institutos de Pesquisa do Estado do Paraná.

O PECD deverá ter o propósito de contribuir para o avanço do desenvolvimento científico e tecnológico do Paraná; com o fito de projetar, por meio de versões atualizadas a cada cinco anos, uma visão de futuro planejado, para o desenvolvimento, avanços e desempenho, em longo prazo, do Sistema de C & T e Ensino Superior do Estado do Paraná; deverá também ter o escopo de contribuir para que seja criada a cultura de planejamento estratégico para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Estado do Paraná.

O PECD deverá contribuir também para que o Paraná adquira competências em algumas escolhidas áreas, subáreas e especialidades das ciências e das tecnologias e dessa forma possa ser construído um excelente Sistema Estadual de Pesquisa e Pós-Graduação e de Graduação.

Não basta que o Paraná possua sete Universidades Estaduais. É necessário que elas sejam de boa qualidade e ofertem excelentes cursos de graduação. Para que o Paraná, como efeito das ações administrativas e políticas executadas por seus gestores, possa atrair e abrigar indústrias que desenvolvam ciências e tecnologias de ponta é necessário que suas Universidades ofereçam recursos humanos altamente qualificados nas ciências e nas tecnologias.

Para tal mister é imperativo atrair mentes brilhantes para seus quadros. Para atrair essas mentes brilhantes é necessário que a instituição receptora ofereça excelentes condições de trabalho, salários dignos, bons laboratórios, boas bibliotecas, célere processo de nomeação dos candidatos aprovados em cursos públicos, sério processo de internacionalização etc.

Esclareço que a contratação de mentes brilhantes, docentes premiados em suas especialidades, trará para a instituição receptora benefícios diversos na forma de prestígio nacional e internacional, verbas para financiamento de suas pesquisas, alunos talentosos, reuniões científicas de alto prestígio etc.
Deverá estar subjacente ao PECD o entendimento de que o Sistema Estadual de Pesquisa e Pós-Graduação stricto sensu é objeto de planejamento e financiamento estatal, sendo considerado como subsistema do conjunto do Sistema Público de Ensino Superior do Paraná.

Um dos objetivos do PECD deverá ser o estímulo ao crescimento equânime de Doutores titulados trabalhando no Sistema Público de Ensino Superior do Paraná, com o propósito de atender, com qualidade, as demandas da sociedade paranaense, visando ao desenvolvimento científico, tecnológico, social, cultural, industrial, agrícola e econômico do Paraná. O objetivo principal do PECD deverá ser o Doutor titulado. Além da oferta de cursos de graduação de excelência, o Paraná necessita de mentes brilhantes para consolidar os grupos de pesquisa existentes, formar novos grupos e, gerar pesquisa científica básica.

2 - Criar o Laboratório Estadual de Energias Renováveis - LEER, associado à Companhia Paranaense de Energia – COPEL, ao Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento - LACTEC e a algumas Universidades públicas e privadas, interessadas, existentes no Estado do Paraná.

O LEER deverá ser um órgão de pesquisas avançadas com um quadro fixo formado por pesquisadores pertencentes a algumas selecionadas áreas das ciências e das engenharias relacionadas à geração e produção de energia elétrica e, admitindo também a presença de pesquisadores visitantes. Um Laboratório que tenha por objetivos planejar o futuro do Paraná com respeito a desenvolver pesquisas e projetos que induzam à COPEL a geração e produção de energia elétrica em larga escala a partir de fontes renováveis.

Segundo previsão do Institut national d’études démographiques da França - Ined, para o ano de 2050 a Terra terá cerca de 9,7 bilhões de seres humanos e, o Brasil terá cerca de 227 milhões de habitantes, constituindo uma massa enorme de população urbana, com uma renda cada vez mais elevada e um padrão de consumo mais e mais exigente.

Haverá, portanto a necessidade de produzir mais alimentos na forma de grãos, proteínas, e será necessário gerar e produzir mais energia elétrica diante da projeção do crescimento do consumo mundial da ordem de 100% nas próximas décadas.

Ainda, segundo Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, divulgado em abril deste ano, e que se refere a recursos hídricos, meio ambiente e clima em nosso Planeta, informa que a partir da segunda metade do século XXI haverá fortes mudanças nos regimes de chuvas e como efeito haverá redução de recursos hídricos no Planeta Terra.

Para o Brasil, o Relatório informa que, além de afetar a floresta e seus ecossistemas, a mudança climática também afetará de modo forte a geração e produção de energia elétrica por meio de hidrelétricas (o Brasil precisará investir mais recursos para o setor hidrelétrico), a agricultura (fácil inferir que a safra agrícola do Estado será comprometida) e a saúde da população.

3 – Criar o Programa Pesquisador Paranaense - PPPAR, com o objetivo nobre de apoiar, por meio da concessão de cotas financeiras mensais, grants, os planos de trabalho referentes a projetos de pesquisas básicas relevantes em ciência e em tecnologias, coordenados por pesquisadores pertencentes às Universidades e Institutos de Pesquisa públicos sediados no Estado do Paraná.

O PPPAR deverá ter flexibilidade no sentido de facilitar que o agraciado possa gastar os recursos com facilidade exclusivamente com as atividades de pesquisa. Lembro que a bolsa de Produtividade em Pesquisa concedida pelo CNPq constitui um aumento salarial para o pesquisador que a recebe. A bolsa PPPAR que proponho destinar-se-á a gastos exclusivos com atividades de pesquisa científica e tecnológica.

É necessário evitar que no Paraná pesquisadores sem acesso a financiamentos do CNPq, da FINEP etc., desistam da pesquisa científica ou tecnológica. Torna-se, portanto, imprescindível que a Fundação Araucária oferte financiamento acessível a bons projetos evitando desse modo a desistência e, até fuga para outro Estado, do bom pesquisador que trabalha em Universidades ou Institutos de Pesquisa sediados no Paraná.

A produção de pesquisa científica básica deve ser priorizada e financiada com maior volume de verba pelo Paraná. Ela é uma condição necessária para o desenvolvimento do Estado. Por exemplo, se não tivesse ocorrido à pesquisa básica financiada, nas universidades e nos institutos de pesquisa estaduais nas áreas de agricultura e pecuária, então o Paraná não seria hoje a força que é na agricultura, no agronegócio, na agroindústria e na pecuária. A pesquisa básica gera a ciência e a tecnologia que gera a inovação.

A pesquisa científica básica deve ser amplamente estimulada e financiada pela administração central do Estado; com isso não quero dizer que a pesquisa científica de ponta deve receber menor atenção por parte do Estado.

A título de esclarecimentos, informo que a pesquisa científica básica é a pesquisa que gera conhecimentos que não têm necessariamente aplicação imediata e, por isso ela é muitas vezes entendida pelos críticos amadores como uma atividade ociosa e onerosa. Eles, os críticos, esquecem que o conhecimento básico de hoje será o conhecimento aplicado de amanhã. E que nenhum desenvolvimento científico e tecnológico exponencialmente avançado será possível sem o recurso e a pesquisa básica da mais básica das ciências, a Matemática.

O regulamento, os editais, os valores das cotas mensais, o tempo de concessão das cotas mensais, e a implementação deste Programa deverão ser atribuições da Fundação Araucária.

4 – Iniciar o processo, que será longo e deverá ter continuidade, que culmine em médio prazo, com a transformação de uma Universidade Estadual em uma instituição de excelência, ou de nível mundial. A instituição escolhida deverá ser a de melhor desempenho, segundo critérios de avaliações trienais da CAPES e avaliações da SETI. O Paraná possui condições financeiras para manter, pelo menos uma Universidade de excelência, ou de nível mundial.

O modus operandi do processo que transformará uma das Universidades Estaduais em uma instituição de excelência, deverá ser buscado junto a pessoas da academia que sejam experientes e conhecedoras do assunto. Essas pessoas saberão explicitar quais as características que uma Universidade de excelência, ou de nível mundial precisa ter para justificar este nome, e o que dela se espera. Neste processo jamais deverão imiscuir-se neófitos e amadores. Eles irão inviabilizar o processo.

Transformar uma das Universidades Estaduais do Paraná em uma instituição de excelência, ou de nível mundial é a única maneira inteligente de lidar com a globalização crescente do conhecimento. A existência de uma instituição desse porte é também uma condição necessária à soberania do Paraná.
A administração central do Estado deve se preocupar também com a capacidade do Paraná continuar participando e se beneficiando no futuro, de um mundo cada vez mais competitivo, e no qual o conhecimento continuará desempenhando um papel cada vez mais importante para a humanidade. Para isto, são consideradas essenciais as Universidades de excelência, ou de nível mundial.

A Universidade de excelência deve, além de seu propósito precípuo, servir de ponte de contato e comunicação entre o Paraná e os demais Estados do país e entre outros países, e servir também de padrão de referência de qualidade e relevância para outras instituições do Estado e do país.

Com a inclusão em seu Plano de Governo das quatro propostas acima mencionadas, que são estruturantes para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná, julgo que se for eleito, então sua administração ao dar a atenção que elas merecem, estará fazendo escolhas corretas para criar infraestruturas necessárias que permitirão ao Estado, em médio prazo, a criação de um excelente Sistema de C & T e Ensino Superior. E certamente o Paraná passará a se destacar no ranking nacional como um dos grandes produtores de conhecimento original que resulte em publicações em revistas internacionais.

Além disso, passará para a história estadual como o administrador que criou infraestrutura para criação de um excelente Sistema de C & T e Ensino Superior à altura da grandeza do Estado. Com esse procedimento, o Paraná dará um salto de qualidade para melhorar substancialmente o desempenho e o financiamento de seu Sistema de C & T e Ensino Superior no contexto da Região Sul e também no contexto nacional.

Lembro ainda que a oferta de cursos de graduação de excelente qualidade por parte das Universidades Estaduais do Paraná, em conjunto com a pesquisa científica básica, são dois dos requisitos indispensáveis para o bom desenvolvimento científico, tecnológico, industrial, agrícola, econômico, social e cultural do Estado do Paraná.

O Estado do Paraná precisa trabalhar de modo sério, no sentido de ampliar o contingente de pesquisadores de alto nível, mentes brilhantes, de modo a responder às demandas de seu desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, agrícola, industrial e social.

Ao finalizar esta carta, sugiro ao pré-candidato que pense no quadro formado pelas seguintes implicações lógicas não excludentes. Estas são implicações verdadeiras. Sem ensino superior de excelente qualidade, não haverá no Paraná pesquisa científica nem tecnológica de excelente qualidade. Sem pesquisa científica e tecnológica de excelente qualidade, não haverá desenvolvimento científico nem tecnológico no Estado; sem desenvolvimento científico e tecnológico, não haverá inovação no Paraná.

Ano VIII, Abril, 2014








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