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Textos em destaque


Carta Aberta aos Pré-Candidatos ao Cargo de Presidente da República

Clóvis Pereira – UFPR; Leandro Filho – UFRJ; Luis Vieira – UFRJ



Senhores Pré-Candidatos:



Os signatários desta carta aberta, membros da comunidade acadêmica brasileira e ativistas no âmbito do Observatório da Universidade – OBSUNI, que comemora seu oitavo ano de existência, no dia 21 de Abril, atentos ao processo de globalização do ensino superior,
além de preocupados com a urgente necessidade quanto ao início de um processo de reformas que resgate a excelência da Universidade brasileira, bem como a qualidade de todo o Sistema Brasileira de Ensino (SBE), cada vez mais combalida também no âmbito da educação básica, conforme verificado pelos baixíssimos níveis de desempenho apurados de forma recorrente pelos organismos nacionais e internacionais que medem e avaliam os principais resultados dos processos de educação em nosso país.

Vêm por meio desta propor aos pré-candidatos ao cargo de Presidente da República na eleição de outubro deste ano de 2014, algumas ressalvas, ao candidato que for eleito, para o comportamento administrativo quando das escolhas e das tomadas de decisões nos negócios da educação escolar brasileira. Em especial, nas tomadas decisões para a administração do Sistema Nacional de Graduação (SNG).

Nos meses que antecederam a eleição para Presidente da República do ano de 2010, o Observatório da Universidade produziu um documento sobre o mesmo tema, a má qualidade do Sistema Brasileiro de Ensino, no qual enfatizava aos candidatos a necessidade urgente de início do processo de reformas do Sistema Brasileira de Ensino. Este documento, intitulado A Indispensável Reforma do Sistema Brasileira de Ensino, encontra-se nos arquivos do blog acima citado (agosto de 2010). Sugerimos sua consulta por parte dos pré-candidatos, pois continua atual.

Infelizmente, o documento citado acima, que foi enviado ao Congresso Nacional por intermédio de um Senador, jaz sepultado em alguma gaveta da máxima instância parlamentar do país bem como na Administração Federal, como acontece aos assuntos relacionados às iniciativas que propugnam o início de um sério processo para melhorar a qualidade do Sistema Brasileiro de Ensino. Parece prevalecer, entre os fátuos que tomam decisões na administração federal, além da falta de respeito à sociedade brasileira, a máxima popular.

Quanto pior a qualidade da educação escolar brasileira melhor para quem dirige o país. Mais fácil e cômodo será programar ações sociais populistas, que iludem a grande massa inculta e desinformada da nação formada por cerca de 60 milhões de habitantes que habitam as periferiasdas cidades e os grotões esquecidos da nação.



Como é do conhecimento da parte culta e bem informada do país, nos dias atuais o Brasil possui um sistema de educação escolar de má qualidade que o está levando à rabeira do competitivo mundo globalizado em termos de conhecimento humano em desenvolvimento científico e tecnológico. Para resultados sobre o desempenho e a qualidade do ensino fundamental e médio basta ler os relatórios produzidos pelo PISA.

Por sua vez, o Sistema Nacional de Graduação – SNG, por exemplo, forma brasileiros com dificuldades intelectuais e técnicas para resolver os triviais e os não triviais problemas que veem afligindo a nação como: saúde e segurança públicas, saneamento básico, meio ambiente, construção de aterros sanitários para as cidade vilas e colônias, transporte coletivo, falta de moradias, falta de empregos, inclusive de empregos qualificados, geração, produção e distribuição de energia elétrica em larga escala a partir de fontes renováveis, preservação de mananciais de água potável, captação, tratamento e distribuição de água potável para a população brasileira, produção e distribuição de alimentos, uso racional do potencial do aquífero guarani, planejamento familiar, dentre outros.

Sabe-se atualmente que o bem mais precioso de uma nação é o desenvolvimento humano de sua população por ser fator de níveis elevados e sustentáveis de processos civilizatórios que nos abrem as possibilidades de adaptação em meio a um mundo em constantes transformações de diversas ordens.

Neste contexto é crucial a importância da educação superior de uma nação e da qualidade de suas Universidades. Não há nação desenvolvida que possua Universidades defasadas das estruturas mais atuais da geração e aquisição do conhecimento. Lembramos que é a Universidade que forma profissionais que irão preferencialmente assumir cargos de comando na administração pública brasileira.

O ensino superior de reconhecida qualidade constitui, por meio da reflexão e da pesquisa científica e tecnológica, o principal instrumento de incorporação da experiência científica, tecnológica e cultural acumulada pela humanidade.

Consideramos que a relevância das Universidades brasileiras (públicas e privadas) será determinada por suas capacidades de responder criativamente aos desafios contemporâneos. Elas, por sua natureza, terão que satisfazer a maior demanda da sociedade por profissionais bem qualificados e atualizados para garantir o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, agrícola, industrial, cultural e social do país.

Emerge desse contexto a necessidade do país contar com um dirigente máximo seguidor de bons princípios morais, sociais, familiares, religiosos e, com formação acadêmica compatível. Um postulante ao cargo de Presidente da República que apresente à sociedade brasileira um Plano de Governo estrategicamente estruturado e demonstrativo de que, se for eleito, estará comprometido com o país, com o bem estar da população brasileira e, não com o bem estar dos financiadores de sua campanha.

Não é demais afirmar que nosso país está sendo criado pelas ações dos dirigentes da sociedade passada e atual. Que o elemento diferenciador que está marcando e, que marcará no futuro as relações entre as nações é, e será definido pela criação e pelo uso do conhecimento que as nações fazem ou farão. Pela criação e uso de ciências e tecnologias continuamente desenvolvidas.

Invertendo a rotina habitual nessa ordem de documentos, selecionamos, a nosso ver, aquilo que não deve ser feito ou mantido no contexto das políticas para o ensino superior as quais denominamos de salvaguardas.

1. Não mudar o Ministro da Educação e seus auxiliares diretos a cada dois anos, como ocorreu nos últimos 12 anos, transformando o Ministério em catapulta para ascensão política;


2. Não utilizar de subterfúgios políticos populistas para criar, de modo atabalhoado e irresponsável e em áreas remotas do país, Universidades públicas e privadas de má qualidade, sem corpo docente qualificado, sem infraestrutura decente (salas de aulas, bibliotecas, laboratórios, telefonia, restaurantes, facilidades de acesso ao uso de internet etc.);

3. Não reproduzir na Educação e Ciência os males que afligem os outros setores do Estado que é ao mesmo tempo inchado e mínimo na prestação de serviços à população;

4. Não aportar ou induzir recursos financeiros anuais decrescentes para o Sistema de C & T destinados ao conjunto de Fundos Setoriais para apoio à atividade científica e tecnológica;

5. Não induzir a redução, mas ampliar, da massa crítica existente no sistema universitário brasileiro em atividades científica e tecnológica, massa crítica necessária para disparar e ampliar a utilização de conhecimentos científicos e tecnológicos em novos processos e novos produtos geradores de riquezas para o Brasil;

6. Não forçar, mas induzir, a criação de ambiente propício para que a comunidade científica e tecnológica do país interaja naturalmente com o setor empresarial e com o setor industrial do país para a atividade de inovação tecnológica. Sabe-se que é importante, segundo experiências internacionais, que a atividade de inovação tecnológica ocorra no interior da empresa e da indústria e, não na Universidade. Tentativas de forçar as instituições universitárias a atuar na área da inovação tecnológica não vão levar a nada, exceto ao mau uso dos recursos públicos;

7. Não persistir no equívoco, que poderá levar a um atraso no desenvolvimento industrial brasileiro, de manter a área da inovação tecnológica exclusivamente sob a coordenação do MCTI. É necessário e fundamental que o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que lida diariamente com o setor produtivo nacional, tenha uma participação mais ativa no apoio à inovação tecnológica, inclusive com recursos para apoiar o setor;

8. Não permitir que nos Orçamentos Anuais da União haja, e aumente gradativamente, o desequilíbrio entre Orçamentos destinados para pesquisa básica e para inovação tecnológica no Orçamento Global do MCTI. A pesquisa científica e tecnológica básica é a pesquisa que gera conhecimentos que não têm necessariamente aplicação imediata e, por isso ela é criticada por alguns como uma atividade ociosa e onerosa. Contudo, sabemos que o conhecimento básico de hoje será o conhecimento aplicado de amanhã;

9. Não fugir da necessidade de proceder uma reforma universitária integrada, diferentemente dos procedimentos fatiados adotados nos últimos 12 anos;

10. Não exagerar a horizontalização da gestão universitária, distribuindo excessivamente as instâncias de deliberação, o que retarda a tomada de decisões e dificulta a inadiável modernização da universidade brasileira.

Ano VIII Abril de 2014



Comentários Recebidos


Prezado Luís

A carta aberta divulgada pelo OBSUNI é uma iniciativa que se reveste de grande importância política, tanto pelo relevante papel que cumpre a universidade, ressaltado pela própria carta, quanto pelo fato de que, se levada a sério pelos candidatos (o que, infelizmente, não espero), os obrigaria a pensar um projeto de desenvolvimento nacional, que não se confunde com a panaceia do aproveitamento das vantagens comparativas, e uma política industrial como elemento central de tal projeto.
Por que concordo com esse espírito geral, gostaria de fazer duas observações de natureza crítica. Primeira, a citação da máxima popular de que “Quanto pior a qualidade da educação escolar brasileira melhor para quem dirige o país. Mais fácil e cômodo será programar ações sociais populistas, que iludem a grande massa inculta e desinformada da nação formada por cerca de 60 milhões de habitantes que habitam as periferias das cidades e os grotões esquecidos da nação.”, ainda que antecedida pela frase “Parece prevalecer, entre os fátuos que tomam decisões na administração federal, além da falta de respeito à sociedade brasileira, a máxima popular.”, induz a um erro de avaliação, pois, em maior ou menor grau, atribui a este interesse dos governantes na ignorância a causa da mesma.
Ora, para me deter apenas ao ensino universitário e à história recente, a causa é política, como sempre o é (não no sentido vulgar da teoria da conspiração, mas no de luta política por interesses institucionalizada pelo Estado); neste caso, a política de expansão universitária adotada desde a década de 1980, com grande impulso na de 1990, baseada na abertura às instituições privadas, que operam como empresas prestadoras de serviço: um dos muitos efeitos nefastos dessa política é o abandono da oferta em cursos em carreiras estratégicas (as engenharias, de modo geral, além de outras) porque exigem infraestrutura cara, o que resulta em mensalidades inacessíveis para a maioria dos estudantes brasileiros. Nesse mesmo período, sedimentou-se no Brasil a ideia de que o interesse das empresas em inovação estimularia o investimento delas em pesquisa, o que não é verdade nem nos EUA, país apresentado como modelo de liberalismo bem-sucedido, mas onde o Estado é e sempre foi o principal investidor em pesquisas científicas. Claro, a origem do investimento é estatal, mas as formas são muito diversas, o que não dá para expor aqui, tampouco sugiro a adoção daquele modelo, cito-o apenas para ilustrar a mentira que sustentou o modelo brasileiro das últimas décadas. Não é demais assinalar que, nesta primeira observação, apontei apenas um dos efeitos nefastos, mas são muitos.
A segunda observação se refere a uma matéria certamente controversa: o significado de excelência. A adoção da competitividade como critério de excelência impõe, também, a adoção de uma série de critérios de avaliação que deságua em uma série de critérios de como organizar institucionalmente a produção científica e, em última instância, no produtivismo. Salvo engano, objeto de crítica por excelência, desta lista. Por certo, uma instituição de ensino superior não pode abrir mão da excelência; entretanto, pode e, a meu ver, deve discutir o significado deste valor à luz dos problemas sociais contemporâneos. Sei que nove entre dez pesquisadores concordam como critério da competitividade, ou seja, nado contra a corrente, mas como esta é uma lista de discussão, creio poder levantar o debate. Também aqui me limitarei a um aspecto de uma questão muito complexa. Se compararmos a produção científica, em qualquer país onde ela tenha avançado desde a década de 1980, com indicadores de distribuição renda, qualidade de emprego, percepção de segurança e bem estar, é comum (embora não seja uma regra) encontrarmos uma correlação negativa. Enfim, o que essa correlação indica é que é perfeitamente possível produzir conhecimento científico sofisticado sem que isto redunde em benefício social correlato; daí que, a meu ver, o critério da competitividade deva ser substituído pelo do bem-estar social, o que implica substituir a competição pela cooperação (com as consequências que isto tem para a organização institucional da produção científica), ideia já defendida nesta lista por outros colegas. Mais uma vez, a questão é muito complexa, aqui limitei-me a indicá-la.
Abs
Jair



“Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação [o comunismo] na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.”, Marx, n’O Manifesto Comunista.

De Pinheiro J.



Luis,

De pleno acordo. Educação e infra-estrutura, prioridades de qualquer pais, comunidade ou civilização que queira crescer na direção correta.

Abs.

Geraldo





Carta Aberta ao Pré - Candidato Beto Richa
Clóvis Pereira – UFPR
Curitiba, outono de 2014
Sr. Carlos Alberto Richa
Governador do Estado do Paraná
Curitiba - PR

Como membro da comunidade acadêmica paranaense e, atento ao processo de globalização do ensino superior; preocupado, há vários anos, com a má qualidade dos cursos de graduação ofertados pelo Sistema de Ensino Superior do Paraná (formado por instituições públicas e privadas), efeito de causa maior que é má qualidade do Sistema Nacional de Graduação - SNG.

E apreensivo com o pífio desempenho dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu ofertados pelas Universidades Estaduais do Paraná, haja vista a última avaliação trienal realizada pela CAPES em 2013; venho por meio desta, sugerir fortemente ao Senhor, que é pré-candidato à reeleição, no ano de 2014, ao cargo de Governador do Estado do Paraná, a inclusão em seu Plano de Governo, na parte referente ao Sistema de C & T e Ensino Superior, as propostas que abaixo exporei.

Elas foram elaboradas e, estão sendo apresentadas ao pretendente com o intuito de oferecer reflexões e principalmente, com o propósito de contribuir com o projeto de comprometimento do pretendente com o Estado e, em especial, com o esforço para elaboração de um projeto para a melhoria do Sistema Estadual de Ensino Superior e, para o desenvolvimento e avanços das ciências e das tecnologias no Paraná.

As propostas a serem apresentadas têm também o fito de contribuir para a construção de um projeto de futuro planejado para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Estado. Isto é, de contribuir para iniciar a cultura de estudos de prospectiva e planejamento estratégico para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná, ações que certamente estarão em seu Plano de Governo.

As Universidades Estaduais do Paraná, que são em número de sete, têm, em minha visão, que estar aptas para enfrentar, quando solicitadas, o desafio de participar da formulação de políticas públicas para o Estado do Paraná, em articulação com a administração central do Estado e, com o setor produtivo do Paraná. Elas deverão também contribuir, quando instadas, com empresas e indústrias para desenvolver um ousado programa de inovação tecnológica que beneficie a população paranaense e aumente a relevância do Estado e do país no mundo globalizado.

Considero que a relevância das Universidades Estaduais do Paraná será determinada por suas capacidades de responder criativamente aos desafios contemporâneos. Elas, por sua natureza, terão que satisfazer a maior demanda da sociedade por profissionais bem qualificados e atualizados para garantir o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, agrícola, industrial, cultural e social do Estado.

Sabe-se que a ciência e a tecnologia devem ser consideradas, pelo bom gestor estadual, como fatores sociais estratégicos para o progresso e bem estar da sociedade paranaense e também para o fortalecimento do Paraná.

Os membros da academia que se dedicam, além do ensino, à pesquisa científica e tecnológica são movidos por uma profunda curiosidade intelectual de entender como as coisas funcionam. Suas descobertas podem ter imensas consequências práticas para a sociedade paranaense. Emerge daí a necessidade de constante vigilância sobre o Sistema de C & T e Ensino Superior por parte da administração central do Estado.

Surge, portanto a obrigação por parte do gestor do Estado de criar e manter no Paraná, Universidades de alto nível, isto é, instituições que abriguem bons centros de ensino profissional, de estudos, de pesquisas e de inovação, como têm sido feito, há várias décadas, na Europa, em alguns países da Ásia e também no Canadá e nos Estados Unidos da América. Este não é um processo que produz efeito a partir de médio prazo. O gestor do Paraná deve estar ciente de que os benefícios para a sociedade paranaense, advindo desse processo, virão em longo prazo.

São os egressos das excelentes Universidades que produzem excelentes ideias; que produzem ciências e tecnologias exponencialmente avançadas que darão, no futuro próximo e distante, origem a bons empreendimentos industriais, agrícolas, comerciais, e não o contrário. Não é correto esperar que as Universidades de excelência, por si sós, modernizem o sistema produtivo de um Estado ou de um país, mas elas precisam estar preparadas para responder, com qualidade, às demandas da sociedade na qual estão inseridas.

O bem mais precioso de um Estado é o seu capital humano. Investimentos em educação escolar superior de excelente qualidade, em pesquisa que gere ciência e tecnologias exponencialmente avançadas em harmonia com um bom projeto para o desenvolvimento estadual, representam a melhor estratégia para um bom gestor de um Estado que deseja atingir o ideal de bem preparar seu capital humano.

O Paraná é um Estado pujante, próspero e rico em bens humanos, naturais e materiais. É autossuficiente em geração e produção de energia elétrica. Ele vende o excedente dessa produção para diversos Estados. É o Estado maior produtor nacional de grãos. O Paraná pertence à Região mais rica do país; um Estado com um orçamento de 35 bilhões de reais para o ano de 2014; Estado com a quinta maior economia do país e que em 2012, segundo dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social – IPARDES, respondeu por 5,8% do PIB nacional.

Um Estado que respondeu, em 2012, por 7,3% das exportações nacionais; o Paraná tem bom parque industrial instalado; Estado que respondeu, em 2012, por 20,9% da produção nacional de veículos automotores; um Estado com excelente desempenho em agronegócio, agroindústria (o Paraná respondeu em 2012 por 42,97% da produção nacional de trigo, 20,66% da produção nacional de soja, 22,41% da produção nacional de milho, 23,73% da produção nacional de feijão, dentre outros produtos, segundo dados do IPARDES); na pecuária, destaca-se o Estado na avicultura, com 26,3% do total de abates do país no ano de 2012; e com um bom sistema portuário por meio do qual gera riquezas exportando e importando produtos.

O Paraná necessita e clama pela organização e manutenção de um excelente Sistema de C & T e Ensino Superior para dar prosseguimento a seu desenvolvimento científico, tecnológico, industrial, agrícola, de serviços, econômico, social e cultural. O Estado necessita de um Sistema de Ensino Superior que gradue e especialize profissionais competentes que estejam aptos para equacionar e solucionar os diferentes problemas que a sociedade lhes proponha. Profissionais que estejam aptos para entender o desenvolvimento global, para criar e usar ciência e tecnologias exponencialmente avançadas para fazer frente aos grandes desafios do mundo globalizado.

O Sistema de Pesquisa e Pós-Graduação stricto sensu do Paraná, que é formado por Universidades e Institutos públicos precisa de coordenação geral, de mais financiamento anual (é constrangedor observar que atualmente o orçamento anual da Fundação Araucária é inferior a orçamentos de FAPs pertencentes a Estados mais pobres que o Paraná); precisa de planejamento, de execução, de monitoramento e de melhor desempenho associado a maior produção de artigos publicados em revistas internacionais.

O sistema acima referido deve ser direcionado para a excelência com a formação de doutores titulados, com a consolidação dos grupos de pesquisa existentes nas diversas instituições do Estado e, com a formação de novos grupos regularmente inscritos no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. O volume de recursos disponibilizados por uma agência estadual de apoio à pesquisa científica certamente é um fator importante no estímulo à execução de projetos científicos por parte da comunidade acadêmica desse Estado.

Os gestores do Estado não devem esperar ou deixar que todas as ações em financiamento de C & T no Paraná fiquem a cargo do governo federal. Isto é um erro. Mesmo porque no caso de divergências políticas partidárias entre governo estadual e governo federal haverá a possibilidade de retenção de verbas federais direcionadas para C & T e destinadas ao Paraná, com grande prejuízo para o desenvolvimento científico e tecnológico do Estado.

Nesse contexto julgo que o Paraná deve olhar como exemplo nosso vizinho, o Estado de São Paulo. Este, ao criar a FAPESP em 1960 passou a obter sucesso no fomento à atividade de pesquisa científica e tecnológica. No ano de 2012 a FAPESP teve um orçamento anual de cerca de R$ 1 bilhão. As Universidades estaduais de São Paulo são as que ocupam melhores posições no ranking nacional. Elas também são anualmente citadas no ranking mundial Times Higher Education, elaborado por Thomson Reuters que elenca as 400 melhores Universidades do planeta Terra.

O THE É o único ranking global de desempenho da Universidade para julgar Universidades de excelência, ou nível mundial, em suas missões fundamentais: ensino, pesquisa, transferência de conhecimento e perspectiva internacional.De modo constrangedor nenhuma Universidade paranaense (pública e privada) tem sido citada anualmente neste ranking.

No contexto de Região Sul, o Paraná tem de modo vergonhoso, ocupado o último lugar no item desempenho do seu Sistema de Pesquisa e Pós-Graduação, haja vista a leitura dos relatórios das avaliações trienais realizadas pela CAPES em 2007, 2010 e 2013. O Paraná não oferta por parte de suas Universidades públicas e privadas, dentre seus cursos de doutorado, nenhum com nota 7, a nota máxima concedida pela CAPES.

A pesquisa acadêmica (científica e tecnológica) desenvolvida nas Universidades paranaenses (públicas e privadas) tem sido de baixo impacto no contexto acadêmico mundial e também de pequena quantidade. Mesmo quando é considerado isoladamente o contexto da Região Sul este fato é verdadeiro.
Uma das ações no sentido de corrigir parte desse desvio do sistema acadêmico paranaense, seria a comunidade acadêmica inserir-se cada vez mais (na forma de colaboração internacional) em grandes projetos com tópicos de interesse mundial desenvolvidos por importantes cientistas estrangeiros. Isto é, aumentar a colaboração internacional. Para tal mister, uma condição necessária passa por iniciativas e incentivos que devem provir dos gestores da SETI e da Fundação Araucária em conjunto com os gestores das PRPPGs das Universidades paranaenses.

Quando o pré-candidato se fixar apenas na leitura de dados contidos em trabalhos confiáveis realizados por empresas brasileiras que avaliam as Universidades do país, basta visualizar as duas áreas: Qualidade do Ensino de Graduação e Qualidade da Pesquisa que estão contidas no Ranking Universitário Folha - RUF, versões 2012 e 2013.

A leitura desses dados para as Universidades paranaenses contradiz a grandeza e a pujança do Paraná. Os dados expostos no RUF nos sinalizam um grave problema existente na gestão do Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná. Problema que tenho alertado há vários anos por meio de textos publicados no Blog Observatório da Universidade.

É chegada a hora para ser iniciado o processo de reversão desse quadro sombrio e letárgico para o futuro do Paraná. O Estado não pode esperar décadas ou séculos para ser criado um Sistema de C & T e Ensino Superior de excelente qualidade. A gestão desse Sistema precisa de um choque para melhorar sua ação e seu desempenho.

Propostas
A seguir, apresento minhas propostas que sugiro sejam incluídas em seu Plano de Governo a ser apresentado à sociedade paranaense antes das eleições de 2014. Elas são propostas estruturantes que contribuirão para ser iniciado o processo de construção da necessária infraestrutura para o bom desempenho do Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná.

1 Criar e implantar, na forma de uma Política de Estado para que haja continuidade em futuras administrações estaduais, o Plano Estadual de Capacitação de Docentes - PECD, com versões a cada cinco (5) anos, com o I PECD na versão 2015-2019.

O plano deverá ser construído com objetivos, regulamento, metas e ações bem definidos e, deverá ser gerido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior - SETI. Ele deverá ter a adesão voluntária das Universidades Estaduais e poderá ser estendido, também por adesão voluntária, aos Institutos de Pesquisa do Estado do Paraná.

O PECD deverá ter o propósito de contribuir para o avanço do desenvolvimento científico e tecnológico do Paraná; com o fito de projetar, por meio de versões atualizadas a cada cinco anos, uma visão de futuro planejado, para o desenvolvimento, avanços e desempenho, em longo prazo, do Sistema de C & T e Ensino Superior do Estado do Paraná; deverá também ter o escopo de contribuir para que seja criada a cultura de planejamento estratégico para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Estado do Paraná.

O PECD deverá contribuir também para que o Paraná adquira competências em algumas escolhidas áreas, subáreas e especialidades das ciências e das tecnologias e dessa forma possa ser construído um excelente Sistema Estadual de Pesquisa e Pós-Graduação e de Graduação.

Não basta que o Paraná possua sete Universidades Estaduais. É necessário que elas sejam de boa qualidade e ofertem excelentes cursos de graduação. Para que o Paraná, como efeito das ações administrativas e políticas executadas por seus gestores, possa atrair e abrigar indústrias que desenvolvam ciências e tecnologias de ponta é necessário que suas Universidades ofereçam recursos humanos altamente qualificados nas ciências e nas tecnologias.

Para tal mister é imperativo atrair mentes brilhantes para seus quadros. Para atrair essas mentes brilhantes é necessário que a instituição receptora ofereça excelentes condições de trabalho, salários dignos, bons laboratórios, boas bibliotecas, célere processo de nomeação dos candidatos aprovados em cursos públicos, sério processo de internacionalização etc.

Esclareço que a contratação de mentes brilhantes, docentes premiados em suas especialidades, trará para a instituição receptora benefícios diversos na forma de prestígio nacional e internacional, verbas para financiamento de suas pesquisas, alunos talentosos, reuniões científicas de alto prestígio etc.
Deverá estar subjacente ao PECD o entendimento de que o Sistema Estadual de Pesquisa e Pós-Graduação stricto sensu é objeto de planejamento e financiamento estatal, sendo considerado como subsistema do conjunto do Sistema Público de Ensino Superior do Paraná.

Um dos objetivos do PECD deverá ser o estímulo ao crescimento equânime de Doutores titulados trabalhando no Sistema Público de Ensino Superior do Paraná, com o propósito de atender, com qualidade, as demandas da sociedade paranaense, visando ao desenvolvimento científico, tecnológico, social, cultural, industrial, agrícola e econômico do Paraná. O objetivo principal do PECD deverá ser o Doutor titulado. Além da oferta de cursos de graduação de excelência, o Paraná necessita de mentes brilhantes para consolidar os grupos de pesquisa existentes, formar novos grupos e, gerar pesquisa científica básica.

2 - Criar o Laboratório Estadual de Energias Renováveis - LEER, associado à Companhia Paranaense de Energia – COPEL, ao Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento - LACTEC e a algumas Universidades públicas e privadas, interessadas, existentes no Estado do Paraná.

O LEER deverá ser um órgão de pesquisas avançadas com um quadro fixo formado por pesquisadores pertencentes a algumas selecionadas áreas das ciências e das engenharias relacionadas à geração e produção de energia elétrica e, admitindo também a presença de pesquisadores visitantes. Um Laboratório que tenha por objetivos planejar o futuro do Paraná com respeito a desenvolver pesquisas e projetos que induzam à COPEL a geração e produção de energia elétrica em larga escala a partir de fontes renováveis.

Segundo previsão do Institut national d’études démographiques da França - Ined, para o ano de 2050 a Terra terá cerca de 9,7 bilhões de seres humanos e, o Brasil terá cerca de 227 milhões de habitantes, constituindo uma massa enorme de população urbana, com uma renda cada vez mais elevada e um padrão de consumo mais e mais exigente.

Haverá, portanto a necessidade de produzir mais alimentos na forma de grãos, proteínas, e será necessário gerar e produzir mais energia elétrica diante da projeção do crescimento do consumo mundial da ordem de 100% nas próximas décadas.

Ainda, segundo Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, divulgado em abril deste ano, e que se refere a recursos hídricos, meio ambiente e clima em nosso Planeta, informa que a partir da segunda metade do século XXI haverá fortes mudanças nos regimes de chuvas e como efeito haverá redução de recursos hídricos no Planeta Terra.

Para o Brasil, o Relatório informa que, além de afetar a floresta e seus ecossistemas, a mudança climática também afetará de modo forte a geração e produção de energia elétrica por meio de hidrelétricas (o Brasil precisará investir mais recursos para o setor hidrelétrico), a agricultura (fácil inferir que a safra agrícola do Estado será comprometida) e a saúde da população.

3 – Criar o Programa Pesquisador Paranaense - PPPAR, com o objetivo nobre de apoiar, por meio da concessão de cotas financeiras mensais, grants, os planos de trabalho referentes a projetos de pesquisas básicas relevantes em ciência e em tecnologias, coordenados por pesquisadores pertencentes às Universidades e Institutos de Pesquisa públicos sediados no Estado do Paraná.

O PPPAR deverá ter flexibilidade no sentido de facilitar que o agraciado possa gastar os recursos com facilidade exclusivamente com as atividades de pesquisa. Lembro que a bolsa de Produtividade em Pesquisa concedida pelo CNPq constitui um aumento salarial para o pesquisador que a recebe. A bolsa PPPAR que proponho destinar-se-á a gastos exclusivos com atividades de pesquisa científica e tecnológica.

É necessário evitar que no Paraná pesquisadores sem acesso a financiamentos do CNPq, da FINEP etc., desistam da pesquisa científica ou tecnológica. Torna-se, portanto, imprescindível que a Fundação Araucária oferte financiamento acessível a bons projetos evitando desse modo a desistência e, até fuga para outro Estado, do bom pesquisador que trabalha em Universidades ou Institutos de Pesquisa sediados no Paraná.

A produção de pesquisa científica básica deve ser priorizada e financiada com maior volume de verba pelo Paraná. Ela é uma condição necessária para o desenvolvimento do Estado. Por exemplo, se não tivesse ocorrido à pesquisa básica financiada, nas universidades e nos institutos de pesquisa estaduais nas áreas de agricultura e pecuária, então o Paraná não seria hoje a força que é na agricultura, no agronegócio, na agroindústria e na pecuária. A pesquisa básica gera a ciência e a tecnologia que gera a inovação.

A pesquisa científica básica deve ser amplamente estimulada e financiada pela administração central do Estado; com isso não quero dizer que a pesquisa científica de ponta deve receber menor atenção por parte do Estado.

A título de esclarecimentos, informo que a pesquisa científica básica é a pesquisa que gera conhecimentos que não têm necessariamente aplicação imediata e, por isso ela é muitas vezes entendida pelos críticos amadores como uma atividade ociosa e onerosa. Eles, os críticos, esquecem que o conhecimento básico de hoje será o conhecimento aplicado de amanhã. E que nenhum desenvolvimento científico e tecnológico exponencialmente avançado será possível sem o recurso e a pesquisa básica da mais básica das ciências, a Matemática.

O regulamento, os editais, os valores das cotas mensais, o tempo de concessão das cotas mensais, e a implementação deste Programa deverão ser atribuições da Fundação Araucária.

4 – Iniciar o processo, que será longo e deverá ter continuidade, que culmine em médio prazo, com a transformação de uma Universidade Estadual em uma instituição de excelência, ou de nível mundial. A instituição escolhida deverá ser a de melhor desempenho, segundo critérios de avaliações trienais da CAPES e avaliações da SETI. O Paraná possui condições financeiras para manter, pelo menos uma Universidade de excelência, ou de nível mundial.

O modus operandi do processo que transformará uma das Universidades Estaduais em uma instituição de excelência, deverá ser buscado junto a pessoas da academia que sejam experientes e conhecedoras do assunto. Essas pessoas saberão explicitar quais as características que uma Universidade de excelência, ou de nível mundial precisa ter para justificar este nome, e o que dela se espera. Neste processo jamais deverão imiscuir-se neófitos e amadores. Eles irão inviabilizar o processo.

Transformar uma das Universidades Estaduais do Paraná em uma instituição de excelência, ou de nível mundial é a única maneira inteligente de lidar com a globalização crescente do conhecimento. A existência de uma instituição desse porte é também uma condição necessária à soberania do Paraná.
A administração central do Estado deve se preocupar também com a capacidade do Paraná continuar participando e se beneficiando no futuro, de um mundo cada vez mais competitivo, e no qual o conhecimento continuará desempenhando um papel cada vez mais importante para a humanidade. Para isto, são consideradas essenciais as Universidades de excelência, ou de nível mundial.

A Universidade de excelência deve, além de seu propósito precípuo, servir de ponte de contato e comunicação entre o Paraná e os demais Estados do país e entre outros países, e servir também de padrão de referência de qualidade e relevância para outras instituições do Estado e do país.

Com a inclusão em seu Plano de Governo das quatro propostas acima mencionadas, que são estruturantes para o Sistema de C & T e Ensino Superior do Paraná, julgo que se for eleito, então sua administração ao dar a atenção que elas merecem, estará fazendo escolhas corretas para criar infraestruturas necessárias que permitirão ao Estado, em médio prazo, a criação de um excelente Sistema de C & T e Ensino Superior. E certamente o Paraná passará a se destacar no ranking nacional como um dos grandes produtores de conhecimento original que resulte em publicações em revistas internacionais.

Além disso, passará para a história estadual como o administrador que criou infraestrutura para criação de um excelente Sistema de C & T e Ensino Superior à altura da grandeza do Estado. Com esse procedimento, o Paraná dará um salto de qualidade para melhorar substancialmente o desempenho e o financiamento de seu Sistema de C & T e Ensino Superior no contexto da Região Sul e também no contexto nacional.

Lembro ainda que a oferta de cursos de graduação de excelente qualidade por parte das Universidades Estaduais do Paraná, em conjunto com a pesquisa científica básica, são dois dos requisitos indispensáveis para o bom desenvolvimento científico, tecnológico, industrial, agrícola, econômico, social e cultural do Estado do Paraná.

O Estado do Paraná precisa trabalhar de modo sério, no sentido de ampliar o contingente de pesquisadores de alto nível, mentes brilhantes, de modo a responder às demandas de seu desenvolvimento científico, tecnológico, econômico, agrícola, industrial e social.

Ao finalizar esta carta, sugiro ao pré-candidato que pense no quadro formado pelas seguintes implicações lógicas não excludentes. Estas são implicações verdadeiras. Sem ensino superior de excelente qualidade, não haverá no Paraná pesquisa científica nem tecnológica de excelente qualidade. Sem pesquisa científica e tecnológica de excelente qualidade, não haverá desenvolvimento científico nem tecnológico no Estado; sem desenvolvimento científico e tecnológico, não haverá inovação no Paraná.

Ano VIII, Abril, 2014








Todo mundo quer ser professor titular
Luis Paulo Vieira Braga


Um conhecido dirigente universitário (emérito, duas vezes titular) fez uma provocação, há alguns anos atrás, afirmando que se um ônibus ficasse enguiçado por muito tempo no campus de sua universidade, o motorista se tornaria adjunto IV. O alvo da crítica era a concentração de professores nessa classe e nível, a penúltima da carreira docente de então, vigente desde 1987 (PUCRCE). Somente, em 2008, foi criada a categoria de Professor Associado, com 4 níveis, impondo-se que a primeira progressão para essa categoria não poderia ser múltipla, apesar de muitos professores estarem há quase 20 anos sem promoção.

Em dezembro de 2012, após uma greve nacional, o Ministério da Educação envia um novo Plano de Carreira para o Congresso, lei 12.772 de 2012, que seria modificada em 2013, pela lei 12.863. Nela se prevê duas formas de acesso à classe de professor titular – por progressão interna ou por concurso. A primeira opção é um vestígio do que o sindicato ANDES-SN propunha inicialmente - uma carreira de professor federal, sem a nomenclatura herdada da era dos catedráticos. A segunda foi uma exigência da elite docente que via na imposição do acesso exclusivo à carreira pela classe de auxiliar um desestímulo à contratação de docentes seniors.

A dificuldade para se manter essa dupla via advém das regras do funcionalismo. Ou a carreira é única e então o acesso só pode se dar no primeiro nível da primeira classe ou há duas carreiras e só se pode passar à categoria de titular por um novo concurso. A não ser que se esteja falando de uma outra carreira em separado, mas isso não está explícito na lei 12.863, o que está longe de constituir um obstáculo para um consenso que atenda a todos os interessados, dada a criatividade jurídica dos parlamentares.

Mas se as questões de carreira estão encaminhadas, a gestão interna das ifes está longe de sê-lo. Quando a reforma de 68 extinguiu o regime de cátedra e criou a carreira docente com as classes de titular (um catedrático light), adjunto, assistente e auxiliar, também instituiu o departamento como instância de referência para coordenar professores com atividades afim, papel antes exercido pelos catedráticos. Ocorre que as Universidades desenvolveram novas atividades de ensino, pesquisa e extensão, aprofundando a dualidade ensino profissional de graduação versus formação para a pesquisa. Assim o departamento cada vez mais se tornou uma abstração, pois o docente deve responder a coordenadores de curso, a agências financiadoras e a fundações de apoio. As suas únicas reuniões concorridas são aquelas em que se define a carga horária ou a aprovação de bancas para concurso.

Os novos e numerosos titulares terão a satisfação de galgar o topo da carreira, mas como com quase tudo que era sólido, verão que ela está se desmanchando no ar.

Ano VIII Abril 2014





Sete presidentes em onze anos

Luis Paulo Vieira Braga



Não se trata de um time de futebol ou de um partido político, instituições de natureza instável que usualmente adotam essa estratégia para justificar um período de insucessos. Mas do INEP, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, que, apesar do nome, não inclui dentre seus objetos de estudo a pós-graduação ou o ensino técnico. Os níveis básico, médio e superior do ensino já dão trabalho suficiente aos seus técnicos e pesquisadores de carreira.

A intensificação da partidarização do serviço público teve, em particular, um papel definitivo na dança das cadeiras no INEP. Já na gestão Cristovam Buarque (2003), o presidente Otaviano Helene abandonou o cargo por não concordar com o loteamento de uma diretoria para um partido aliado. O ministro seguinte, Tarso Genro (2004-2005), obviamente nomeou outro presidente – Eliezer Moreira Pacheco que ficou no cargo até a substituição por Fernando Haddad (2005-2012) o mais longevo dos ministros da safra trabalhista. No entanto, não se pode dizer o mesmo dos presidentes do INEP da sua gestão. Foram três: Reynaldo Fernandes (2005-2009); Joaquim José Soares Neto (2010-2011) e Malvina Tuttman (2011-2012). Todos demissionários em função de problemas com o ENEM. Roubo da prova na primeira versão, troca de cadernos na segunda e vazamento de questões na terceira. Sai Haddad, em dezembro de 2012, para assumir a Prefeitura da Cidade de São Paulo, entra Aloízio Mercadante, vindo do Ministério da Ciência e Tecnologia. Muda também o presidente do INEP que passa a ser Luiz Cláudio Costa. Em fevereiro de 2014, Mercadante deixa o MEC para assumir a Casa Civil, entra Henrique Paim como novo Ministro da Educação e nomeia José Francisco Soares para a presidência do INEP. Terão até dezembro do corrente ano para, entre outras tarefas, aplicar mais um ENEM que se constituiu na atividade mais importante daquele instituto e seu maior fator de estresse.

Não vou reproduzir as críticas ao modelo de vestibular adotado pelo governo brasileiro. Já o fiz diversas vezes e além de mim, outros o fizeram com muito mais embasamento e profundidade, dentre eles, um dos ex-presidentes da instituição, Otaviano Helene. Mas apenas registrar a partir da leitura da crônica de Elio Gaspari, de quarta-feira última, que sepultaram de vez a promessa de mais uma edição do ENEM, que se tornou compulsório para qualquer jovem que queira ingressar no ensino superior público ou privado, técnico ou acadêmico. O custo e a logística são apresentados como razões pelo seu atual presidente (que provavelmente deve ter se comprometido com isso antes da nomeação) como os motivos determinantes pela restrição que torna o exame único a bala de prata do ano escolar de centenas de milhares de estudantes no país.

Ano VIII, Março 2014






ULTRABOOKS PARA DOCENTES FEDERAIS

Abraham Zakon, Maria Antonieta Peixoto Gimenes Couto e Rodrigo Pires do Nascimento
Escola de Química, Centro de Tecnologia, UFRJ


O reinício antecipado de aulas universitárias amparado em recursos audiovisuais demanda o uso crescente de computadores eficientes e projetores de imagens portáteis. Impõe-se o cuidado de evitar a contaminação com vírus eletrônicos nos pen drives quando são conectados em torres fixas nas salas onde vários docentes lecionam. Projetores portáteis permitem usar paredes para projetar imagens grandes ao invés de telas pequenas instalados à frente dos quadros de giz, o que restringe a área útil destes.


AS DIFICULDADES PARA SUPERAR A INCIDÊNCIA DE VÍRUS DIGITAL


Em novembro de 2013, docentes da Escola de Química da UFRJ relataram aflitos o aparecimento de vírus computacional em seus pen drives após usar as torres das salas de aulas, utilizadas, também, por docentes de outras unidades acadêmicas. O problema reincidia porque vários programas anti-vírus não detectavam e eliminavam o seu causador.
Uma docente decidiu evitar o uso do pen-drive em qualquer outro computador adotando CD´s, cujo acesso aos dados é lerdo e limitante. Outro colega usou três salas de aulas e o “virus das pastas ocultas” infectou, também, o computador do seu gabinete. Só resolveu seu problema formatando o disco rígido infectado, pois não conseguia desinstalar nem o anti-virus que fora bloqueado para usar outro software corretivo. Seus arquivos ficaram desorganizados no pen drive. Então, pediu um notebook emprestado a um aluno para lecionar sua aula.
Um professor do Instituto de Química da UFRJ veio lecionar sua aula de Química Inorgânica na Escola de Química e seu pen drive ficou inoperante. Foi a uma loja de serviços de informática tentar recuperar (em vão) os arquivos. Por sorte, tinha uma cópia similar de reserva (back up), mas perdeu seu tempo e frustrou-se. Na aula seguinte trouxe seu notebook, adquirido com parte do seu salário.
Outro docente da Faculdade de Farmácia no Centro de Ciências da Saúde da UFRJ enfrentou, também, o sequestro e ocultação de arquivos no seu pen-drive. Só percebeu o problema ao infectar seu computador em casa, que ficou inoperante por 15 dias. E não sabia se o fato ocorrera no Auditório do CCS ou numa loja de reprodução digital durante um evento que organizara.
Para os docentes universitários, o uso de computadores é vital para garantir sua produção acadêmica pois dependem de correios eletrônicos, preenchimento de bancos de dados (Lattes) e outros serviços providos pela Internet. Cada impedimento ao uso normal de computadores gera ansiedade, pânico, atrasos e prejuízos coletivos. Atualizar em Informática é vital.


DEFASAGEM, ATUALIZAÇÃO E DISPONIBILIZAÇÃO DE HARDWARES E SOFTWARES


A instalação de versões recentes de softwares quase universais, como o MS-Windows e o MS-Ofice, em alguns computadores (“upgrade” inevitável) altera a configuração dos slides preparados em Power Point 2003 ou 2007, que são mais simples e consagrados. Outro incômodo envolve os carregadores de baterias dos modelos antigos dos notebooks, filtros de linha e conectores (benjamins) para garantir o acoplamento com diversos tipos de tomadas porque os conectores de 3 pinos adotados desde 2012 complicaram tudo. Algumas baterias antigas suportam o máximo de uma hora de operação sem carregamento contínuo e as novas acima de 5 horas.
Alguns docentes e pesquisadores universitários usam microcomputadores antigos, cujas placas-mãe não resistem a mais de 6 anos de uso contínuo. Os fabricantes descontinuam a produção de componentes após 5 anos, atualizam os processadores e complementos e a reposição por peças usadas produz os mesmos problemas. O prejuízo causado aos docentes inclui horas aflitas com tentativas de resolver cada desacerto, incluindo comprar peças para substituir, instalar, etc. O âmbito do prejuízo computacional supera o individual: é da nação.
O ganho de tempo útil nas aulas e apresentação de conferências, palestras e trabalhos em eventos com o uso de computador mais projetor de imagens atinge 30% (a menos) do tempo sobre a exibição de transparências, difíceis de carregar e de ajustar a imagem. Adotar transparências impressas a cores pesa no corpo de quem as usa e nos custos. A Informática atingiu um nível de processamento muito adequado para atividades docentes e de pesquisa. Infelizmente, essa percepção aplica-se a vírus, softwares e hardwares e é necessário prevenir ao invés de remediar, para reduzir custos individuais e institucionais.


DOCENTES ESTADUAIS E MUNICIPAIS RECEBEM NOTEBOOKS EM COMODATO



O Prof. Arnaldo Niskier revelou-nos (em A aula do futuro, O GLOBO, 04/dezembro/2013) que O MEC distribuiu milhares de tablets por aí. De forma desordenada. Sem ter antecedido o processo do indispensável treinamento dos mestres. Muitos estabelecimentos de ensino transformaram-se em cemitérios de tablets, inclusive porque eles não têm um mínimo de manutenção. É evidente que a tecnologia aplicada em sala de aula contribui para melhorar a interação de professores e alunos.
Todos os professores da rede estadual ganham notebooks em termos de comodato. Uma docente da EQ-UFRJ tem duas irmãs que são professoras da rede estadual de ensino e as duas receberam notebook em duas ocasiões, após 4 anos da primeira. Quando elas ganharam o novo, devolveram o antigo. Elas recebem o pacote completo com modem para que possam acessar a internet durante as aulas. Uma dessas irmãs também é professora municipal em Itaguaí e recebeu um tablet há poucos meses. O número de professores municipais e estaduais é muito superior ao da rede federal.
A decisão de conceder notebooks para docentes estaduais e municipais resultou de uma política de estado e nós, docentes das universidades, institutos, faculdades e escolas federais, necessitamos de igual solução por parte do MEC.


ULTRABOOKS E PROJETORES ELETRÔNICOS: UMA NECESSIDADE CRESCENTE


É mais econômico disponibilizar ultrabooks para os docentes do que instalar computadores em salas de aulas numa rede, cujo controle patrimonial demanda vigilância, técnicos de manutenção em tempo integral, acesso às chaves dos armários (às vezes, extraviadas) contendo as torres, mouses e teclados. Cada docente tende a preservar o equipamento que garante seu desempenho e sua progressão funcional e a evitar surpresas, ansiedade e nervosismo, nocivos à sua saúde.
O peso somado de um notebook antigo (3,5 kg, processador Core 2 Duo), sua fonte elétrica e da pasta para seu transporte totaliza 5 kg, que é excessivo para os idosos, gestantes e cardíacos. Os ultrabooks com os processadores i7 e memória RAM de 8 GB, memória SSD mínima de 24 Gb, com fontes menores, pesam em torno de 1,5 kg. Dependendo da configuração, seu custo atinge 1/3 ou quase a metade do salário do docente com mestrado ou doutorado.
É injusto deixar que os salários reais dos docentes federais sejam reduzidos pela necessidade (inevitável) de comprar ultrabooks mais leves e rápidos. Nem sempre há projetos de pesquisa ou de extensão para financiar a curto prazo tal aquisição.
A disponibilidade de projetores multimídia portáteis nos departamentos, e nas Coordenações de Informática, viabiliza acoplá-los com notebooks e ultrabooks (além da Internet), e usar paredes amplas ao invés de telas pequenas. Seu uso possibilita neutralizar imprevistos como o incrível furto de um projetor do teto numa sala de aula da EQ-UFRJ,ocorrido há meses. Salas com carteiras individuais móveis existem em grande quantidade e são apropriadas para uso de projetores portáteis, e demandam um filtro de linha com fiação maior e tomadas com aterramento elétrico.
Esse cenário sugere a adoção pelo MEC de um programa de cessão em comodato patrimonial de ultrabooks para docentes federais e de destinação de dois ou três projetores multimídia portáteis por departamento, que é compensador. Justificativas: 1ª - os professores universitários são autodidatas e hábeis no uso e apresentação de tabelas, figuras e desenhos; 2ª – ultrabooks possibilitam ilustrar as aulas teóricas com figuras e fotografias de alto valor didático; 3ª - cada melhoria nos instrumentos de ensino produz aumento da qualidade das aulas, do interesse dos alunos, e catalisa o crescimento de sua criatividade em atividades correlatas, científicas, tecnológicas, artísticas e em procedimentos odontológicos, médico-hospitalares e outras áreas de interesse humano.

Mensagens Recebidas




Prezados:
Acho a colocação de vocês - autores do ótimo clipping visto no blog citado - muito elucidativa do assunto "recursos computacionais nas salas de aula". Mas receio que a implementação via MEC seja difícil, pois, afinal as autoridades não parecem estar preocupadas com a qualidade das aulas e sim com a quantidade delas, e também com a quantidade de alunos.
Destaco alguns pontos adicionais que são importantes para mim e alguns professores mesmo que não, necessariamente, da Escola de Química.
É o caso, por exemplo, da necessidade de se contar com um bom sinal de internet na sala de aula especialmente para o professor e, em alguns casos, para os alunos, o que permite a consulta a sites, blogs, etc. durante as aulas, que é muito enriquecedor.
A disciplina da nossa graduação intitulada “Gestão Tecnológica e Propriedade Industrial (GESTIP)”, que compartilho com a profa. Suzana Borschiver, tem como única opção paa ministrar aulas uma das salas de Informática, sendo comum que grupos de 3 alunos utilizem um só computador...
Tenho levado para outras salas de aula no piso térreo - onde ministro, também, GESTIP e a disciplina “Comercialização na Indústria Química” - além do meu “laptop”, um par de alto-falantes e adaptadores para poder exibir vídeos, tal como faço em cursos dentro e fora da UFRJ. Destacando que utilizo vídeos previamente baixados num “pen drive”, já não há Internet disponíveis em conectores ou Wi-fi em algumas salas de aulas.
Abraços,
Mario Sérgio (Escola de Química-UFRJ)
















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